PARONOMÁSIA, ALITERAÇÃO E ASSONÂNCIA

Parou na Ásia.
Ter ali a São era um desiderato que o siderava.
Acenou à Nancy.

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A CEIA COM CIO (Asseia-te, Cação!)

Ceava ansioso em Seia o ciumento Idalécio Cação
sentado num bacio de cimento pouco asseado
cioso o Cação da graciosa caça que ciosamente tinha caçado

lição das ondas

mão áspera a passar os dias a limpo
como sorvendo manhãs de chuva
mordendo amiúde a lição das ondas

desprecisar

é um exercício de linguagem. o que sobra

transposição das ravinas que seguram o voo das aves

sobressaíam-lhe os cornos no rebanho (4)

dom pedro depois de matar os assassinos de inês encerrou-se com ela durante vários dias.

a necrofagia nesse tempo ainda era permitida

Mário da Costa

Fotografia Maria Ametista

A sereia, o amante e o corno

As sereias quando voam também se molham
folheiam a espuma azul das nuvens
observam as ondas de baixo para cima
percorrendo-se atrás das bolhas d’ar

Mas guardadas estão por velhos tritões
amarram-nas com filhos, dívidas, sossegos
serenos as compraram, exaltados as conservam
como putas na cama até que por tédio

encantam as sereias os passantes
devoram-nos pelos sentidos e depressa
a jaula onde o tritão as guarda

descobrem. É depois longa a espera pela surdez
que da paixão os liberta, se entretanto o corpo
provaram e o amor viveram, que mais importa?

2013

obrigado à tristeza de partir

2007-07-07-10h05m43

era uma tristeza num ponto cruz
muito simples manchando de bordado
o tecido destes últimos dias abrindo-
-se totalmente à solidão provável posta a
necessidade de partir. abandonar a
cidade, um risco absurdo – mas permanecer
seria sempre uma chatice monstruosa. abandonar
a aldeia as amantes os amigos os simples
conhecidos. era uma tristeza a crescer
emaranhan-
do-se por dentro e por fora
na recriação de um futuro. um tempo verbal
difícil e paranóico de conjugar. entretanto
a cidade amolecendo em lava fervendo a aldeia
obrigado à tristeza de partir.

Tiranete

metes e tiras constante
mente da mente
o tiranete da Net que
mente impune
mente
metes em tiras o tiranete da Net
atiras a mentira para a retrete
e vais curtir um tour de TIR
ou de trotinete
não há Net que te meta inerte

O demolidor da rua formosa e o Corto Maltese da ilha do Faial

I

A banda desenhada é inseparável do reino azul da infância. Para que lhe façamos a mais completa justiça, só nos resta despir, por um momento — de ousio ímpar —, o sisudo traje do editorial. Entreguemo‑nos, então, à nua fantasia da crónica, que há‑de trazer consigo, por certo, a perigosa vontade de vasculhar velhos papéis. Devemos lê‑los, de resto, com a demorada cautela do historiador incréu, que não ignora o complexo de superioridade da memória. Sem esquecer a metodologia do engano, bastar‑nos‑á, doravante, o brilho do itálico, a simpatia do leitor e o abandono do plural de modéstia. Continuar a ler

(o)missão missiva 3

(o)missão missiva 3

abri as janelas (duas vezes par sobre par) ao início da noite para encher a casa com os ares enfartados de frio. deve ser isto aquilo a que chamam crescer. durante dois minutos os papéis voaram, mal se segurando à parede. a caneta fez o este-oeste. há meses era capaz de me ter ralado ao ponto do espirro. agora, lá se foram os papéis. as fotocópias úteis depositaram-se contra a parede. anotações entraram-me pela luz do candeeiro adentro. deve ser isto a que chamam crescer. com um ou outro assomo de medo, mesmo que só com sintomas limitados. água fria. é preciso uma dose líquida de vontade para se conseguir entrar, outra igualmente translúcida para se poder sair.

entretanto, já tomei todas as providências para ser feliz. arranjei cebolinho fresco.

eee escrevo-te.

informei, casualmente, a senhora do café, a senhora do portão, a senhora que volta e meia passeia pela rua…elas encarregar-se-ão das restantes senhoras. casualmente hei-de comprar queijo, que me esqueci. e tenho de pedir outra via do boletim de vacinas que, vá-se lá saber como, perdi. temos vida, residual e ansiosa vida.

por fim, mudei tudo. o fundo do ecrã do computador, o toque e ecrã de boas vindas do telemóvel, o modo de apresentação de data&hora.

o som desta noite é macio e o jantar já desperta na sua cama de cebola e alho.

só não mudei a voz. nem a hora. essa só muda daqui a meses.

fotografia e texto de susana m. g. silvério

Gostava de reunir contigo para chegar a um consenso

Gostava de curtir contigo está a chegar o incenso Gostava de rir contigo
pra chagar o ambiente tenso Gostava de me divertir contigo pra chingar
o Zé Apreenso Gostava de sentir contigo práconchegar o bom senso Gostava
de sair contigo pra tomar um copo distenso Gostava de sumir contigo para purificar
o censo Gostava de partir contigo até nos afogarmos no mar imenso Gostava de reunir
contigo para chegar a um consenso Gostava de ir ao Rio Nir contigo com o Tigo
e consigo, penso.

o estranho caso do papalagui serial-killer de sedativos

o bolo da minha miúda passeia altivamente
pela mesa
enquanto o papalagui assassina ferozmente
mais um sedativo
num gesto furtivo
de rara subtileza

é fácil:
língua de fora como cobra letal
emborca dum trago
um copo cheio d’água natural
eis o crime consumado
eis perpetuada a redenção
cai de borco extenuado
cai redondo de escantilhão!

oulipo perto (2)

dirigiu-se ao isqueté em vão. tinha fé, a São, em arranjar uma

pré-colocação para o José João. Ia a passar em Pé de Cão quando

colocou mal o pé no chão e apanhou uma infecção. Expulsou o xulé

malsão antes de levar uma injecção e bebeu um chá de hipericão para

acalmar a decepção. mas era grande a inquietação: estava deitada no rés-do-chão,

mas sentia-se em pé no sopé de um vulcão. balbuciou “não há nenhuma conexão

na confecção desta rousselização” (1)! ali por perto, abanou a cabeça, o zé joão,

e disse que não, que não, talvez seja uma queneauzição (3), e esteja oulipo perto,

então…

 

(2) frases inusitadas para situações maradas

(1) Aparentemente não há nenhum sentido: há, felizmente, mas está escondido

(3) o neologismo é um neo-situacionismo!

e como?

foto texto ssilvério

e como?

propaga-se como cor em linho branco. não só metaforicamente. acredito nisto. nas afinidades de sangue de verbo solto. nos adjectivos descalços.
tal como acredito na solidez dos prédios. quanto a mim, todas as janelas dos prédios deveriam permanecer fechadas. poupava-lhes o ar de espanto, a suspeita de contágio.
o que parece ser essencial, penso enquanto destapo a manhã seguinte, é que já há poucos lugares na terra debaixo de água.
vai-se a pele, mas fica o corpo. o resto, ao todo muito, hão-de trazê-lo às colheradas.

gira-giras as palavras ao acaso e dizes: tanto faz. há que parar, não por respiração, senão por mistério do próprio nome. fico-me como posso. era preferível que pudéssemos ser outros, aqueles ali de olhos postos em nós.

o rapaz é estrábico, tem franja e um joelho esfolado.

– Olha… diz, sufocado, apontando para a minha cara.

às vezes a nossa voz não chega. só com vidro duplo.

começa-se cedo, porque no aproveitar é que está o ganho. porque fazemos coisas que no fim nem… nem sabemos por onde meter a colher.
eu olhava-o: sim. à colher ou ao colherim.

Ah, comme on est bien.

depois deixei de o ver. e no fim guardei as mãos.

Ora veja, quando eu era criança brincava sozinha e odiava bonecas. E agora aqui estou, a beber licor ao final das refeições, entre as gentes que não se crê mutilada. A indigestão é o mais torpe dos sentimentos, não crê?

justo tantas palavras na terra e parece que só escolhemos as mais encarquilhadas.

gosto de pensar que ao usá-las as absolvo. imagino-as em genuflexão e reza de contrição. por coisas pequenas, comuns. as banalidades também têm pernas curtas.

sem dares importância à minha voz rouca, desataste às gargalhadas.

eu cheguei a gostar daquilo. dias daqueles em que tudo parecia valer a pena. tu com o teu colherim a imitar ouro ou cobre ou lá o que era. manias. um olho vítreo aferroado pelo sol.

fui vê-lo ontem… mas eu já tinha saído. já estava perdida em mim.
e… como? perguntou.
comecei a receber postais, disse.
posts? esfregou o olho…
não, postais. chegaram um a um.
como?
como nunca chegarás a saber.

fotografia e texto de susana m. g. silvério

Falar sobre quê?

Sobre as chagas
Sobre as côdeas
Sobre as ratazanas cinéfilas e os seus lóbis
Tenho as palavras presas
Não acompanham a velocidade pró caos
Como turista fico boquiaberto com as medusas
A petrificarem a humanidade daquilo a que chamam povo
E continuam a chegar como raios de sol ao planeta
Lázaros em carne viva
Para consolo dos gordos luzidios abraçados a César
Os leões… Palitam os dentes imunes à lepra

fotografia de Sandra Guerreiro

poesia para uma fotografia de Pedro Polónio

pedro polónio

sou um homem e pinto.
acontece-me frequentemente sair de casa
para escolher uma mulher na rua,
uma desconhecida, alguém cujo rosto seja um poema,
ou simplesmente um rosto. Continuar a ler