no autocarro

acto único

Num autocarro de serviço urbano, cujos passageiros terão, todos, mandado uma pinocada há menos de uma hora, à pinha, uma mulher de meia idade, flácida, de aspecto descuidado, ocupa um lugar sentado, praticamente adormecida, mal segurando com uma das mãos um saco com compras. No corredor e a seu lado, um homem de meia idade, flácido, de aspecto descuidado, desperta do embrutecimento rodoviário típico porque um líquido pastoso encharca-lhe a meia do pé esquerdo – o seu melhor pé. Verifica então que um dos pacotes de leite inclusos no saco da personagem à sua ilharga ter-se-à furado algures mas, depois de um irritado olhar sobre aquela carcaça gelatinosa, opta por considerá-la responsável pelo sucedido. Acto contínuo, esbofeteia três ou quatro vezes a mulher, que finge não dar por nada, continuando de olhos fechados muito ciosa do seu lugar. Intrometem-se terceiros. Gera-se uma grande confusão. Os que estão em pé apoiam incondicionalmente a iniciativa do homem flácido, os sentados condenam-no, indignados. Há também alguns indecisos. Pancadaria geral. O motorista trava com brusquidão e o aparelho imobiliza-se, obediente. Alguns caem. Outros aguentam-se. É assim em tudo na vida. Continuar a ler

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o homem que comia granito

I

– Sempre é verdade que come granito, homem?

– Perdão, não prestou atenção ao título: COMIA granito…

– Não, não, não… As regras são as seguintes: primeiro, descreve-se uma situação, que só depois se intitula… O título corresponde então à parte dos factos considerada mais importante pelo autor, devendo ser claro, curto, incisivo, apelativo…

– … Ah sim? Então olhe, eu de facto comia granito, mas agora já não como disso. Enjoei. Essa é a verdade.

– Acredito em si, homem que comia granito. É que me andaram a tentar impingir que você COME granito! Eu não pude deixar de rir, claro. Que disparate tão grande, Virgem!

– Não sou nada!-

II

– Desculpe, é o senhor que anda por aí a comer granito?

– Com muito gosto, muito prazer…

– Não, eu é que digo isso: muito prazer!

– Também come? É óptimo, não é? Já experimentou às rodelas?

– Não, nem por isso…

– E ao forno, hum? Com todo aquele môlho…

– Não, bolas, não!

– Então o que quer de mim? Ó homem, largue-me!

– Vá lá, deixe-me ir consigo… Só um bocadinho e prometo que nunca mais o volto a incomodar.

– Está bem. Mas só uma fatia que eu não sou seu pai, ouviu?

– Ouvi.

III

– É você o homem que comia granito?

– Não, por acaso sou a mulher que comia calcário, mas que agora come argila… Porquê?

– Permita-me que me apresente, sou o homem que come alcatrão às porradas.

– E então?

– Case-se comigo!…

– Que estranho… Apetece-me vomitar-lhe para cima…

– Bem me parecia que com essa dieta o seu fígado não ia longe…

IV

– Desculpe, é a senhora a mulher que come argila?

– Sim?

– Eu sou o homem que comia granito.

(com ansiedade)

– O do título???

– Ele mesmo. Eis o meu B.I.

(sem ânimo)

– Oh, que emoção…

– Que tal um aperitivo? Criado, deixe-nos sós.

– Como?

– Também?

– E eu?

– Quem é quem?

– Se é uma pergunta…

– … Talvez.

– O.K., traga-me disso. Dois, claro. Agora nós, finalmente… Com que então a comer barro, hã? Sua taradinha, não vê que isso lhe é deveras prejudicial?

– É, mas o pai lambuzava-se em granito…

– O que lá vai, lá vai, por isso, eu já não sou teu pai. Portanto, beija-me e despe-me.

– Como sempre, é aqui que acaba, não é?

– É?

– É.

joão pedro figueiredo

texto escrito para um programa da RUC

photo nebmura

O b t u s â n g u l o

I

Obtusângulo desceu rapidamente as escadas e saíu para a rua aos berros. Apesar do seu estado, dirigiu-se com exactidão ao centro de um tampo de esgoto que, no meio da estrada, podia ainda reconhecer-se por se situar defronte do edifício das artes extemporâneas. Obtusângulo gritava e esbracejava como um louco. «Grito e esbracejo como um louco!», dizia em harmonia com a narrativa, «Não importa porquê, não é? Basta-vos saber que estou louco!!! Mas se o não admitisse seria mais fácil, hã??? A vossa curiosidade abjecta não se satisfará impune, corja, paguem-me, paguem-me com esse olhar incrédulo!»

II

Era uma bela ansiedade, secundada por uma coreografia igualmente bela. Ao longe, sem som, tratar-se-ia de um bailarino perfeitamente soviético, figurando a dança da libertação. Sem dúvida…

Foi de repente que Obtusângulo se calou. Os braços continuavam, descoordenados e bruscos, o percurso que o estarem colados ao corpo lhes permitia. Por instantes, ficou a ouvir o silvo que lançavam no ar. Depois, acordando daquele torpor traiçoeiro, rodou sobre si mesmo, expirando em pequenos gemidos o esforço que ignorava fazer, e acabou por levantar vôo, para tão longe que nunca mais alguém o viu.

Vi Obtusângulo, pela última vez, debaixo do painel solar a alisar as penas. Fui ter com ele, mais furioso que espantado, mas o barulho que fiz ao afastar as telhas foi o suficiente para o afugentar. Aproveitei para ajustar a antena. Creio que não ia para longe, já que não levava gravata. Longe é relativo mas, apesar disso, ou por causa disso, não ia decerto para lá. Este facto, do qual me convenço mais e mais à cadência das ocorrências, ocultei-o, porém, a alguém que lhe era muito íntimo – muito íntima, para atalhar o enredo. Gipsofila mudou de côr quando lhe garanti que seguira para longe. «Para o sul, já que estamos no outono», disse-lhe eu. Amareleceu, o que, confesso, fez-me crescer o prazer que sentia por sabê-la a sofrer. Há pessoas que nos causam mais repulsa do que é normal, assim como as há que, para além disso, nos provocam um nó no estômago que se prolonga para baixo, até onde vocês sabem. Gipsofila não era uma delas, o que só aumentou a minha raiva, e a espuma começou a jorrar-me da boca. Depois disto, nunca mais soube de Obtusângulo. Mas isto foi ontem, para quem se interessa pelos pormenores…

III

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Cu memorável

Ao contrário do acontecido nas últimas aparições, em que fizemos exactamente o mesmo, apetece-nos hoje comemorar. Hoje com mais propriedade do que ontem, em que voltaram a assinalar-se momentos importantes para o curso da humanidade, porque hoje não nos ocorre nada para comemorar. Pela primeira vez no ano, não há datas oficiais, efemérides, causas, cousas vetustas e garridas que nos possam valer. O dia é de absoluta não comemoração. O que merece uma comemoração.

ouvir um cu memorável