transeuntes

todos os relógios indicavam a mesma hora
brotavam, volteavam no terreno
deambulavam malsãos
mudos, irresolutos..
contida na vigília, ela não cabia no tempo

sua alma havia anoitecido precocemente

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no teu olhar

no teu olhar
a outra margem
um traço a verde esbatido
.
o teu olhar
perde-se na coloração do lápis
entre o verde esmeralda
e a lisura da corrente
.
teu olhar
uma janela rasgada de ausência
na fachada virada ao rio
.
olhar
esquecido no infinito
debruado o resplendor
no turvo das águas
o meu reflexo
a branco e preto
.
.
no teu olhar

.
.
anil

atropelamento e fuga


Era preciso mais do que silêncio,
era preciso pelo menos uma grande gritaria,
uma crise de nervos, um incêndio,
portas a bater, correrias.
Mas ficaste calada,
apetecia-te chorar mas antes tinhas que arranjar o cabelo,
perguntaste-me as horas, eram três da tarde,
já não me lembro de que dia, talvez de um dia
em que era eu quem morria,
um dia que começara mal, tinha deixado
as chaves na fechadura do lado de dentro da porta,
e agora ali estavas tu, morta (morta como se
estivesses morta!), olhando-me em silêncio estendida no asfalto,
e ninguém perguntava nada e ninguém falava alto!

Manuel António Pina

Fotografia JJC, colagem Carolina Santana

querer mais do que não

“estás dentro de mim…”

é o que eu por vezes digo, em tom de blasfémia, ao meu amigo quando ele fala mais baixo e não me toma de assalto com sua calma misteriosa, indelével, profundamente (in)definido.

às vezes sinto vazio, fecho os olhos, sou vazio. nessas o meu amigo cabe, meritório de confidências. não sei que função te foi atribuída, amigo, que estarás mais inteirado dela do que eu, que veja pelas costas o abismo acabado de transpor pelo salto breve e irreflectido duma criança que persegue borboletas? não queres a vertigem, a agonia, a dissonância das trevas que te chamam das entranhas de mim, pois não? é que privar com amigos intrínsecos, vacantes na vigília, espelhos nocturnos que me dividem entre a sinceridade da tua existência, num desígnio monumental do universo do qual és uma função disfarçada sob a pele dum homem, e a alma do universo, és pó das estrelas. como podes tu ter tão elevados anelos?

ah bem-aventurado amigo, nunca serás desiludido.

já-mias. perdão: jamais, assim, à francesa:

“tu vivras dans mon oeil comme une paillette dans un rayon de soleil…”

vou pôr-me a contar palinhas ao tempo.