n o i t e t r a n s f i g u r a d a

Por entre as ramadas surgia agora um casarão fascinante. Fomo-nos encaminhando para a porta e entrámos. Do lado direito havia uma sala enorme, na penumbra, com mobília encerada e uma máquina de escrever sobre uma longa mesa.

Perdi-me na imensidão do silêncio, na penumbra…

um espelho…

Um tic-tic mágico despertou-me! era o Emílio Bacharel a escrever à máquina, tic-tic tic-tic, nem parecia que estava a tripar.   O meu avô, encavalitado num armário ao fundo da sala, comia bombons, todo lambusado.   Dissipei-me na observação daquele quadro vivo, emoldurado pela penumbra…

sombras…

O tic-tic irritou-me e desapareci no ar translúcido das outras divisões. Foi quando chegou a família – é melhor ir avisar o Bacharel, pensei, eles não devem gostar de ver um desconhecido a mexer na máquina, é nova, nem eu posso mexer.   Não fui e eles não gostaram mas não disseram nada porque eram bem educados.   Perguntaram ao meu avô que estava a fazer e ele, perturbado, respondia incongruências sublinhando erva. Erva, sublinhava ele. Começaram por nada entender, pretexto para novas perguntas, mais estranhas e incisivas.  Chegaram mesmo a irritar-se e a berrar confusamente questões sem nexo.  A minha avó perguntou se ele estava maluquinho e, exaltada, porque estava sempre a dizer erva? e ele, desnorteado, foi contar tudo…
Retirei-me para o meu quarto, onde já estava o meu primo. Depois apareceu o meu tio que bateu no meu primo, eram de Lisboa, levando-o sem sequer me dirigir o olhar. As coisas acalmaram, forma todos não sei para onde, desapareceram, e eu fiquei deitado na cama a pensar nos estrondos e, raios, marimbando-me pura e simplesmente.

Ao acordar, pensei em mandar outra trip, eu tinha muitas não sei porquê, e como ainda era noite, fui esperar pelo nascer do dia para a janela. Ainda estava tudo silencioso e escuro quando, dum lado, surgiu uma espécie de lua cheia, subindo devagarinho no céu até estacionar um pouco acima da linha do horizonte e desaparecer. Surgiram mais luas, de ambos os lados, sempre outra mal a anterior acabava de desaparecer, até surgir uma lua escura que subindo rapidamente no céu, estaca ao alto e aí se conserva – tinha nascido o dia.

Saí de casa e, cá fora, caíam uns pingos de chuva, estava uma manhã cinzenta. Enquanto procurava um sítio abrigado ia encontrando, acho que eram trabalhadores, com sachola e saúde no olhar, e de cada vez que pensava ter encontrado um bom sítio, surgiam dois, sempre dois, a virar uma curva de estradão, até que me sentei num banco em frente a uma espécie de parque infantil cheio de putos.

Os putos olharam para mim de olhos muito abertos e, abandonando os baloiços e o escorregão num movimento imperceptível, aproximaram-se, com vagar, sempre a olhar para mim de olhos muito abertos, e silenciosos, cautelosamente sentaram-se
nos bancos
Foram-se sentando                          em frente

nos bancos                    a mim

em frente

a mim,

deviam ser excursionistas pela maneira como tagarelavam umas com as outras enquanto preparavam a merenda, e cada vez se sentavam mais. Já davam a volta à mesa que havia no meio dos bancos, quando uma excursionista se sentou a meu lado, e ficou silenciosa, a olhar em frente, mas eu estava demasiado ocupado a fazer um pica, com um papel de embrulho que não colava. Depois de muito cuspo pareceu-me, enfim, seguro, e acendi um fósforo que se apagou antes de o conseguir chegar ao pica. Acendi mais fósforos e quando, finalmente, consegui que o pica começasse a queimar, ele descolou-se e eu tive que o apagar. Tornei a enrolá-lo e, para que desta vez não houvesse azar, fiz um orifício numa prata e enfiei lá o pica para o manter comprimido. Depois andei à procura dos fósforos, mas os fósforos já tinham acabado, por isso toquei no braço da excursionista e estendi-lhe o pica, ela disse-me que não queria, eu disse-lhe que não lho tinha oferecido mas que pedia fósforos. Então ela passou-me uma caixa de fósforos, eu acendi o pica e ela perguntou-me muito baixinho se aquilo era mesmo droga, eu disse-lhe que sim, ela disse que não acreditava, e eu encolhi os ombros.

Entretanto, passaram umas camionetas de excursão, que apitaram e todas disseram adeus aos que iam lá dentro, adeus, até as camionetas desaparecerem. Depois, continuaram outra vez a tagarelar,

menos a que se tinha sentado ao meu lado, que olhava em frente, sem falar. Acabei o pica, tirei uma caixinha do bolso, e da caixinha tirei um ácido, ela perguntou-me o que era aquilo, eu disse-lhe LSD, e meti-o à boca.

braga, março de 1977

adolfo velho de macedo, aka adolfo luxúria canibal

photo: warmsummernight