faltavas tu

era um sono meio in-
completo faltavam tu-
lipas mas era o tempo futuro onde
me seria dado habitar. os humanos Continuar a ler

vê a dimensão das coisas

vê a dimensão das coisas
o espaço entre elas,
a voz que lhes assiste.

as coisas têm voz, paz.
a outras vozes chegam e
mexem nas coisas. as coisas

não têm voz. nem
a paz que lhes assiste.

retro versão

retro versões

quando crescer quero ser puto e jogar às escondidas com o umbigo ela olhando o tecto da sua casa, a esta hora já deveríamos estar na rua fugindo do outono a estação onde nunca param os comboios felizes onde há bar aberto e cerveja pouco fresca acontece que a desenvoltura das coisas chora as lágrimas burocraticamente ainda não me acredito nisto, depois se verá, aliás o outono é uma antevisão de climas menos temperados choraria a primavera assim não sei desejo-te um verão quente e gonçalvista numa adolescência feroz talvez então conversássemos no mesmo bilinguismo opaco mas claro dizendo que oui oui non non talvez peut-être trouver la façon le rencontre,

ora destas retroversões venho reprovado
desde o ensino mais básico.

passear mutuamente a solidão

temos para já isto em comum: podemos
passear mutuamente a solidão. seguro as nozes
entre os dedos partes num sussurro chegam
os pedreiros a fio de prumo uma equação impenetrável
atrás da janela um barco adiando o seu adeus. assim
se erguem os ladris quando regressares amanhã
uma frase adormecerá no sofá – sim, até porque
ele é um bom estratega – disseste, ficarei sentado
com o copo na mão olhando o jardim e verificando
a três um jogo de dois. esbate-se o som do ferro
sobre a pedra. pela tua janela risco definitivamente
a folha de papel fabricando barcos lagos cisnes
velhos morrendo pelos bancos e um puto a
reconstruir remoinhos
a partir do dedo. podia gozar com a tua frase
ou deitá-la ao tanque, os cisnes abrindo e fechando
o bico, muito rapidamente. de qualquer forma
ele nem sequer é um bom estratega, o barco
afunda-se rapidamente. despedir reaparecer
desaparecer despir depois de adormecer. amanhã
os pedreiros regressarão ao seu caos de cimento
desalinhando em toda a parte vestígios

de um jogo a dois três ou mesmo dois.

mondik (é tipo fado de coimbra)

pobres dos rios que se quedam
nos postais ilustrados, tristes os amores
que não percebem de nevoeiros
nas margens dos rios onde sonham a
selvajaria que já não têm. canalizados

eu e  mondik nos deixamos descair para a foz
passando todos os dias por um montemaior saudando
ao longe, castelo da minha areia em maré alta
nuvem da minha maré baixa
desaguando porque sim e porque não.

os rios ganharam o beneplácito de possuir
as águas que sabem que lhes vão tirar.
esse tal meu sonho era o de ser ribeirito
mordiscar teus pés uma qualquer vez que fosse
por suas margens.
sabendo-me pequenino ponto de água a engrossar
perdido entre tantos litros condenado
a chegar a uma foz que não terá
o teu nome (dava-to já) nem
mesmo passeante encontrarás
em tantas águas aquele bocadinho onde ali
por ti me desfiz mondik.

fugir de casa

entre a infância e as pequenas regras de
apenas as crianças vírgula
têm dois pontos
vontade e cestos de vide
para
fugir de casa.
não o fazem
apenas deixam ficar
o frasco no armário. assim: si-
lêncio. fazer isso tudo já
antes mesmo sem arregaçar as mangas.
camisas sujas nos braços, os cantos
da despensa são o refúgio dos deuses.
esferográficas bic fina como metáfora
alguns processos no conhecimento
da solidão. dois pon-
tos parágrafo e travessão.

homem, mulher, deserto e maçã

homem, mulher, deserto, maçã

Um deserto deixa-se atravessar por uma serpente uma serpente é atravessada pela maçã.

(por favor não tires os dedos
de dentro da água. Não movas
os lábios, deixa-me
uma dessas fotografias antigas
onde os amantes suspiravam
sobre o sépia a negro os cabelos)

A maçã adverte o deserto contra as areias. As areias movem-se Continuar a ler

ainda há gente para tudo


tinha uma calma totalmente controlada quero
dizer: por dentro fervia mas deitava fora
a tranquila fotografia dos veados numa tempe-
ratura calma ausente de cios. chegou
e já tinha ido. eu nem queria já sequer
querer

mordiscando uma perspectiva vulcânica
a língua lambendo a lava. fomos por um passeio
e tentei convencê-la: você está perante
um poeta eu nunca acreditara nisto
mas não há nada como descrer
para convencer

eficazmente ela chamava-me já pelo nome
um chui veio moer café neste moinho
o aquecimento era sobretudo telefónico
deixo-me de estórias e vou-me embora a rapariga
fica-se a acreditar este gajo era mesmo poeta
ainda há gente para tudo.

a última paixão

hoje tive uma longa conversa
com a minha morte. vinha
vestida de azul. sorria.
falámos vagamente de
qualquer coisa
como quem não quer ir
directamente ao assunto. depois
deixei a mão esquerda repousar-lhe
sobre a coxa direita olhei-a
e disse-lhe de caras: qual
é a tua ó minha? ficou
à procura de palavras folheou
as sobrancelhas e partiu a
virar as costas (ela é sempre
assim: muito sem ruídos
discretíssima).
a primeira vez que
nos galámos vi logo
esta tem de ser chegará
o nosso dia ainda
te hei-d’apalpar as tetinhas
aprofundaremos o diálogo
em definitivo desde a primeira troca d’olhos
em ti adivinho uma paciente e
segura paixão.
até lá semeio meus amores
fugazes e transitórios um pouco
por todo e qualquer lado nervosamente
te aguardo ó derradeira.

(fotografia photoshopada pelo Hugo C. Pinto)

manual de rega para plantas com flor

trouxeram flores. secaram
nas jarras. teriam secado
também na terra.
nunca regar as plantas
com a água dos olhos.
aprender.

rir. rios

nem por um pouco procuro
a árvore acesa o punhal aberto
a solidão em seus rios sensuais

nem por um pouco acho
árvores acesas punhais abertos
e solitários rios sensuais

nem por acaso acho
a árvore parda, pássaros acesos
da solidão em seus rios sensuais

nem acredito no acaso, acho
a paixão parda, pássaros abertos
a solidão por meus rios sensuais

dias

às vezes pela manhã preferia que fosse
pelo meio da tarde e
pelo menos
respondia-te com letras

outras vezes pela tarde queria
que fosse
manhã outras

vezes a noite, tantas vezes
noites de pele e pedir mais
essas vezes

e outras as manhãs
das noites que são as tuas noites
e outras as noites que me são manhãs
somos um desencontro às vezes de horários

jjc (a foto também)