(o)missão missiva 3

(o)missão missiva 3

abri as janelas (duas vezes par sobre par) ao início da noite para encher a casa com os ares enfartados de frio. deve ser isto aquilo a que chamam crescer. durante dois minutos os papéis voaram, mal se segurando à parede. a caneta fez o este-oeste. há meses era capaz de me ter ralado ao ponto do espirro. agora, lá se foram os papéis. as fotocópias úteis depositaram-se contra a parede. anotações entraram-me pela luz do candeeiro adentro. deve ser isto a que chamam crescer. com um ou outro assomo de medo, mesmo que só com sintomas limitados. água fria. é preciso uma dose líquida de vontade para se conseguir entrar, outra igualmente translúcida para se poder sair.

entretanto, já tomei todas as providências para ser feliz. arranjei cebolinho fresco.

eee escrevo-te.

informei, casualmente, a senhora do café, a senhora do portão, a senhora que volta e meia passeia pela rua…elas encarregar-se-ão das restantes senhoras. casualmente hei-de comprar queijo, que me esqueci. e tenho de pedir outra via do boletim de vacinas que, vá-se lá saber como, perdi. temos vida, residual e ansiosa vida.

por fim, mudei tudo. o fundo do ecrã do computador, o toque e ecrã de boas vindas do telemóvel, o modo de apresentação de data&hora.

o som desta noite é macio e o jantar já desperta na sua cama de cebola e alho.

só não mudei a voz. nem a hora. essa só muda daqui a meses.

fotografia e texto de susana m. g. silvério

e como?

foto texto ssilvério

e como?

propaga-se como cor em linho branco. não só metaforicamente. acredito nisto. nas afinidades de sangue de verbo solto. nos adjectivos descalços.
tal como acredito na solidez dos prédios. quanto a mim, todas as janelas dos prédios deveriam permanecer fechadas. poupava-lhes o ar de espanto, a suspeita de contágio.
o que parece ser essencial, penso enquanto destapo a manhã seguinte, é que já há poucos lugares na terra debaixo de água.
vai-se a pele, mas fica o corpo. o resto, ao todo muito, hão-de trazê-lo às colheradas.

gira-giras as palavras ao acaso e dizes: tanto faz. há que parar, não por respiração, senão por mistério do próprio nome. fico-me como posso. era preferível que pudéssemos ser outros, aqueles ali de olhos postos em nós.

o rapaz é estrábico, tem franja e um joelho esfolado.

– Olha… diz, sufocado, apontando para a minha cara.

às vezes a nossa voz não chega. só com vidro duplo.

começa-se cedo, porque no aproveitar é que está o ganho. porque fazemos coisas que no fim nem… nem sabemos por onde meter a colher.
eu olhava-o: sim. à colher ou ao colherim.

Ah, comme on est bien.

depois deixei de o ver. e no fim guardei as mãos.

Ora veja, quando eu era criança brincava sozinha e odiava bonecas. E agora aqui estou, a beber licor ao final das refeições, entre as gentes que não se crê mutilada. A indigestão é o mais torpe dos sentimentos, não crê?

justo tantas palavras na terra e parece que só escolhemos as mais encarquilhadas.

gosto de pensar que ao usá-las as absolvo. imagino-as em genuflexão e reza de contrição. por coisas pequenas, comuns. as banalidades também têm pernas curtas.

sem dares importância à minha voz rouca, desataste às gargalhadas.

eu cheguei a gostar daquilo. dias daqueles em que tudo parecia valer a pena. tu com o teu colherim a imitar ouro ou cobre ou lá o que era. manias. um olho vítreo aferroado pelo sol.

fui vê-lo ontem… mas eu já tinha saído. já estava perdida em mim.
e… como? perguntou.
comecei a receber postais, disse.
posts? esfregou o olho…
não, postais. chegaram um a um.
como?
como nunca chegarás a saber.

fotografia e texto de susana m. g. silvério