A sereia, o amante e o corno

As sereias quando voam também se molham
folheiam a espuma azul das nuvens
observam as ondas de baixo para cima
percorrendo-se atrás das bolhas d’ar

Mas guardadas estão por velhos tritões
amarram-nas com filhos, dívidas, sossegos
serenos as compraram, exaltados as conservam
como putas na cama até que por tédio

encantam as sereias os passantes
devoram-nos pelos sentidos e depressa
a jaula onde o tritão as guarda

descobrem. É depois longa a espera pela surdez
que da paixão os liberta, se entretanto o corpo
provaram e o amor viveram, que mais importa?

2013

obrigado à tristeza de partir

2007-07-07-10h05m43

era uma tristeza num ponto cruz
muito simples manchando de bordado
o tecido destes últimos dias abrindo-
-se totalmente à solidão provável posta a
necessidade de partir. abandonar a
cidade, um risco absurdo – mas permanecer
seria sempre uma chatice monstruosa. abandonar
a aldeia as amantes os amigos os simples
conhecidos. era uma tristeza a crescer
emaranhan-
do-se por dentro e por fora
na recriação de um futuro. um tempo verbal
difícil e paranóico de conjugar. entretanto
a cidade amolecendo em lava fervendo a aldeia
obrigado à tristeza de partir.

faltavas tu

era um sono meio in-
completo faltavam tu-
lipas mas era o tempo futuro onde
me seria dado habitar. os humanos Continuar a ler

Os números de 2011

Os duendes de estatísticas do WordPress.com prepararam um relatório para o ano de 2011 deste blog.

Aqui está um excerto:

Um comboio do metropolitano de Nova Iorque transporta 1.200 pessoas. Este blog foi visitado cerca de 5.800 vezes em 2011. Se fosse um comboio, eram precisas 5 viagens para que toda gente o visitasse.

Clique aqui para ver o relatório completo

a terra tem um verme que se infiltra em nós

a verve tem um verbo
a hora tem minutos

depois não digas que te não
disse dos segundos

das folhas dos comuns lugares
onde estive como
não tendo estado. dai-me

um corpo, onde a voz saia da pele
dai-me um estorvo para poder fugir da
repetição dos gestos e inexactos
actos refugiado no assim assim
assim não será apenas mais, a vez será outra
e que chovam águas e

entre elas façamos ondas
longos pedaços de forças
instáveis depois

não digas que não.

princípio situacionista da adulteração de um media com balões subversivos

da fot0nela entretanto baNALIzada

minero-asturiano-situationn

nada como foder com um minero asturiano
!esos sé que son hombres!

este tudo começou assim

vê a dimensão das coisas

vê a dimensão das coisas
o espaço entre elas,
a voz que lhes assiste.

as coisas têm voz, paz.
a outras vozes chegam e
mexem nas coisas. as coisas

não têm voz. nem
a paz que lhes assiste.

retro versão

retro versões

quando crescer quero ser puto e jogar às escondidas com o umbigo ela olhando o tecto da sua casa, a esta hora já deveríamos estar na rua fugindo do outono a estação onde nunca param os comboios felizes onde há bar aberto e cerveja pouco fresca acontece que a desenvoltura das coisas chora as lágrimas burocraticamente ainda não me acredito nisto, depois se verá, aliás o outono é uma antevisão de climas menos temperados choraria a primavera assim não sei desejo-te um verão quente e gonçalvista numa adolescência feroz talvez então conversássemos no mesmo bilinguismo opaco mas claro dizendo que oui oui non non talvez peut-être trouver la façon le rencontre,

ora destas retroversões venho reprovado
desde o ensino mais básico.

passear mutuamente a solidão

temos para já isto em comum: podemos
passear mutuamente a solidão. seguro as nozes
entre os dedos partes num sussurro chegam
os pedreiros a fio de prumo uma equação impenetrável
atrás da janela um barco adiando o seu adeus. assim
se erguem os ladris quando regressares amanhã
uma frase adormecerá no sofá – sim, até porque
ele é um bom estratega – disseste, ficarei sentado
com o copo na mão olhando o jardim e verificando
a três um jogo de dois. esbate-se o som do ferro
sobre a pedra. pela tua janela risco definitivamente
a folha de papel fabricando barcos lagos cisnes
velhos morrendo pelos bancos e um puto a
reconstruir remoinhos
a partir do dedo. podia gozar com a tua frase
ou deitá-la ao tanque, os cisnes abrindo e fechando
o bico, muito rapidamente. de qualquer forma
ele nem sequer é um bom estratega, o barco
afunda-se rapidamente. despedir reaparecer
desaparecer despir depois de adormecer. amanhã
os pedreiros regressarão ao seu caos de cimento
desalinhando em toda a parte vestígios

de um jogo a dois três ou mesmo dois.

Sete

Sete homens foram presos
quando pela noite
os cabelos puxavam
a uma rapariga.

Algures na cidade
eles só buscavam
o dia sumido.
“Olha ali o sol”

– dissera um
na solidão do Metro. Era
uma cabeça loira

– e mal os raios tocaram acesos
ali se prenderam
e foram presos.

poema de Pedro Alvim, imagem O Eco de Paul Delvaux, roubado de um recorte de jornal, aposto que do Diário de Lisboa.

close-up

és capaz de filmar o meu sofrimento?

Abbas Kiarostami - CloseUp
és gajo para me fotografares a alma e levá-la? consegues assobiar a minha dor? fazes um cinema do meu sofrimento? atreves-te?

e capaz foi.

mondik (é tipo fado de coimbra)

pobres dos rios que se quedam
nos postais ilustrados, tristes os amores
que não percebem de nevoeiros
nas margens dos rios onde sonham a
selvajaria que já não têm. canalizados

eu e  mondik nos deixamos descair para a foz
passando todos os dias por um montemaior saudando
ao longe, castelo da minha areia em maré alta
nuvem da minha maré baixa
desaguando porque sim e porque não.

os rios ganharam o beneplácito de possuir
as águas que sabem que lhes vão tirar.
esse tal meu sonho era o de ser ribeirito
mordiscar teus pés uma qualquer vez que fosse
por suas margens.
sabendo-me pequenino ponto de água a engrossar
perdido entre tantos litros condenado
a chegar a uma foz que não terá
o teu nome (dava-to já) nem
mesmo passeante encontrarás
em tantas águas aquele bocadinho onde ali
por ti me desfiz mondik.

fugir de casa

entre a infância e as pequenas regras de
apenas as crianças vírgula
têm dois pontos
vontade e cestos de vide
para
fugir de casa.
não o fazem
apenas deixam ficar
o frasco no armário. assim: si-
lêncio. fazer isso tudo já
antes mesmo sem arregaçar as mangas.
camisas sujas nos braços, os cantos
da despensa são o refúgio dos deuses.
esferográficas bic fina como metáfora
alguns processos no conhecimento
da solidão. dois pon-
tos parágrafo e travessão.

homem, mulher, deserto e maçã

homem, mulher, deserto, maçã

Um deserto deixa-se atravessar por uma serpente uma serpente é atravessada pela maçã.

(por favor não tires os dedos
de dentro da água. Não movas
os lábios, deixa-me
uma dessas fotografias antigas
onde os amantes suspiravam
sobre o sépia a negro os cabelos)

A maçã adverte o deserto contra as areias. As areias movem-se Continuar a ler

ainda há gente para tudo


tinha uma calma totalmente controlada quero
dizer: por dentro fervia mas deitava fora
a tranquila fotografia dos veados numa tempe-
ratura calma ausente de cios. chegou
e já tinha ido. eu nem queria já sequer
querer

mordiscando uma perspectiva vulcânica
a língua lambendo a lava. fomos por um passeio
e tentei convencê-la: você está perante
um poeta eu nunca acreditara nisto
mas não há nada como descrer
para convencer

eficazmente ela chamava-me já pelo nome
um chui veio moer café neste moinho
o aquecimento era sobretudo telefónico
deixo-me de estórias e vou-me embora a rapariga
fica-se a acreditar este gajo era mesmo poeta
ainda há gente para tudo.

nota editorial

a quase totalidade dos textos publicados na liberatura cadernos, versão html, estão agora aqui republicados, no que poderemos chamar a versão blogue. é altura de passar à digitalização das edições em papel (podem esperar sentados, não é só preguiça, a tarefa é complicada), e de acordar os que foram convidados a aqui escrever, juntamente com novos convites agora espalhados.  ouviram? então acordai:

(havia vídeos melhorzinhos no youtube, mas o coral de s. domingos é muito cá de casa)