Falar sobre quê?

Sobre as chagas
Sobre as côdeas
Sobre as ratazanas cinéfilas e os seus lóbis
Tenho as palavras presas
Não acompanham a velocidade pró caos
Como turista fico boquiaberto com as medusas
A petrificarem a humanidade daquilo a que chamam povo
E continuam a chegar como raios de sol ao planeta
Lázaros em carne viva
Para consolo dos gordos luzidios abraçados a César
Os leões… Palitam os dentes imunes à lepra

fotografia de Sandra Guerreiro
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as pinturas feitas de arco-íris

as pinturas feitas de arco-íris imaginados desfizeram-se à chuva  quando o frio metálico das lâminas queimava os cabos de uso contínuo.

e os cães bebiam o leite das garrafas espalhadas no chão e dos corpos pingando.

por mais que os homens se atirem das torres ou das escadas construídas caem sempre na terra.

domingues pinto

fotografia de amontei

Violações de Sonhos coisas sem nome

Guiado pelas paisagens da história
Retrospectivo os enredos da existência
Mas junto aos monumentos, não sei porquê?
Nem sempre o deslumbre é sem dor
Como se algumas sumptuosidades tivessem inerente as feridas
Ficavam-me dos factos, gestos por vezes anónimos
Reboliço de Mães a fugir à frente das lanças – escudos de crianças
Violações de sonhos, coisas sem nome
E um pó no ar do fim da batalha – a encobrir o veludo do manto
Sempre o mesmo manto
Que depois de sacudido se acariciava se acaricia…

Ilustração Hugo C. Pinto

Outra vida acontece

O mutante explode
Espreguiça-se a vida
Outra matéria
Outro estado de alma
Liberto da goma das palavras
Liberto do barro que molda os corpos
E outra vida acontece
Longe da armadura pré-histórica de nós

Pinturas transparentes, sopradas por desejos
Sedas que se enrolam como corpos
Como bandeiras de nós, dispensadas dos mastros

Domingues Pinto

Falar sobre quê?

Sobre as chagas
Sobre as côdeas
Sobre as ratazanas cinéfilas e os seus lóbis

Tenho as palavras presas
Não acompanham a velocidade pró caos
Como turista fico boquiaberto com as medusas
A petrificarem a humanidade daquilo a que chamam povo

E continuam a chegar como raios de sol ao planeta

Lázaros em carne viva
Para consolo dos gordos luzidios abraçados a César
Os leões… Palitam os dentes imunes à lepra

Já provo nos teus lábios o sabor das estrelas

Esqueço-me nos teus braços tempestade
E rodopio nos teus furacões
Entre restos de telhados e balões por rebentar
Esqueço-me nos teus braços
E retalhos espalham-se, conforme a leveza da matéria
Esqueço-me nos teus braços
E ficamos assim espalhados pelo Mundo
Por toda a parte bocados de nós Alma
De nós Matéria
E para alem da atmosfera
Outra atmosfera
Outro furacão
Com tantos princípios assim
É impossível deixar de te abraçar
Luz que me dá vida
Vertigem de Universo
Estou mesmo à beirinha
Já provo nos teus lábios o sabor das estrelas

domingues pinto

Há nessa voz!… Um golpe de magia tangente

Valiosa voz da alma que se despe ao vento!… Galopa no bosque
E se deita nos cumes para ficar mais perto das estrelas
Tu que ultrapassas o volume da matéria imaginável
Transformas as paisagens em filmes, geleia Cósmica
Berço de Sóis
Há nessa voz, um golpe de magia tangente!… E passamos magnéticos
Como quem nada, ou atravessa de barco um rio
O mar do caos que nos absorve é a estrada
E mudamos de Planeta

Domingues Pinto

imagem sharonloves’s

Olhos de ternura

Foram hipnóticos
Cintilaram desejos
E o útero de estrelas rasgou o silêncio
Como que milhentos dias fossem possíveis
Na terra em Tar ou noutro planeta qualquer
Peitos de portas abertas
Panos coloridos no meio das pedras
E um sabor a ti que me ficou dos olhos

Colisão de átomos no peito

 

Hoje pensei em Ti
Só este pensamento era um poema
Com versos entrelaçados nas batalhas
Tantos gestos de Amor
Tantos ais de dor
E esta emoção!…
Colisão de átomos no peito!… Sai pelos olhos a correr
Filme da existência, que se transforma em rio
Margens onde ficaram sabores da Vida
Deste mundo próprio. Das nossas memórias
P’ra mim!… Aqueles beijos acabaram cedo de mais
Continuamos a amar-nos sim!…
Independentes mundos paralelos
Por vezes via passar um cometa e pedia um desejo
Por vezes havia no teu gesto um indício de ternura… breve
Demasiado breve…
Para crescer e apagar a fúria de não saber quem eras.
Via um protótipo, imagem feita para vencer
E nessa peça não erras meu herói
Sim a culpa era só minha
Eu dava-te razões para enfurecer e explodires a tua Razão
Sobre a minha indiferença
Mas hoje. Depois de tantas orbitais
Voltamos a encontrar-nos na passagem tangente ao ponto de partida
Preenchemos as lacunas com razões matemáticas
Entre probabilidades números abstractos e outras análises
Só para provar que nunca nos deixamos de Amar

domingues pinto, fotografia jjc

A Espiritualidade está nos Gestos

Nascem no meio da arte
Encontram-se nos jardins paradisíacos
Brincam com o belo, como quem espanta medos
Banham-se nas fontes encantadas, entre minaretes com vozes sagradas
As cores são mágicas
São rendilhadas as ombreiras as cúpulas e os Beirais
Sente-se a Alma, como se Deus morasse aqui
Nas árvores, prendem colares de flores a agradecer-lhes a sombra
A espiritualidade está nos gestos
Nas pétalas que se espalham nos tecidos ondulados entre lamparinas

Domingues Pinto

Um gesto voador

Se falar da liberdade é utópico
Existir é ilusão
Preciso ouvir da tua boca a voz
De todos os teus membros um gesto voador
Já sem raízes, que o mar vai longe
Preciso sentir que existir é constante mutação
E num impulso
Sem penas que o corpo é belo assim
Dar um passo no céu

Domingues Pinto

No peito de uma gaivota

Não tenho pétalas, para a flor dos teus olhos
Nem aromas para o perfume do teu coração
Entre os cheiros e os sentidos
Tenho os meus olhos perdidos!… Para se encontrar nos Teus
Numa viagem qualquer
Num lugar onde bater – bem mais forte o coração
No peito de uma gaivota
No brilho de um girassol
Ou no casco de um navio a baloiçar na maré
Pode levantar-se um vento
Podem eriçar-se as velas
Podemos partir p’ro mar

Domingues Pinto

Naquela mania de perfumar as nuvens

Para ti
Abrem-se os braços das árvores
E o coração das pedras
Se te falar de seiva e sangue
Não me deixarás secar nos lábios Sonhos
Correm em nós
Dão-nos Vida
Bebo o aroma da tua voz
Saboreio o teu cheiro
Pingo que te percorre o corpo e volta a evaporar
Só!… por capricho do céu
Naquela mania de perfumar as nuvens

Domingues Pinto

Mataram a cabra velha

Neste quarto
Onde o silêncio começa a ser galáctico passam naves para Marte.
Passa a guerra, passa o ódio, passa a ganância de morte.
Passa mais um presidente, mais um estado letal de mente.
Mais um ventre em explosão umbilical.
Enfada-se o patriotismo e estou quase a acreditar
Esta guerra foi sem crer… O homem foi enganado
Foi levado a acreditar
E ainda quer fazer querer, não haver razão p`ra drama
Não chega cá a poeira
O Petróleo vai descer e isto, vós podeis crer
Foi fuga já confirmada
Já é verdade a valer
Mais um ventre pendurado num ramo de oliveira
Ah! É da festa é verdade!
Mataram a cabra velha

Cultiva-se em folclore este ritual de morte

Dançam, bebem, pulam alto
Saltam por cima do fogo
Fazem cruzes nas ombreiras com baldes do sangue novo.
A cabra está pendurada tal oferenda em sacrifício
Estrebucha o edifício
No embondeiro do Povo.

Domingues Pinto

Somos aqueles que acreditam na miragem do beijo

Nós somos um bando de depenados, a quem sobraram fraques

P´ra encobrir penugens a sair das crateras

P’ra encobrir as cicatrizes cutâneas dos machados de pedra das bombas de Napalm

Nós somos em mistura as emoções de todas as desgraças que causamos sem querer ou deliberadamente

Somos todo o tipo de riso e de choro

Somos isto tudo e mais o que inventamos

Mais os sonhos que conseguimos ter – mesmo sem querer, enrolados na noite dos lençóis imaginários

Somos os sonhadores

Somos aqueles que acreditam na miragem do beijo

E vivem apavorados com os degelos

Na retina de criança ficou azul cristalina a montanha a cair no mar

No meio o gelo é luminoso e a montanha um livro, que se desfolha em películas de RX

Contagem decrescente na adaptação do habitat

Onde se lavam umas e criam outras margens

Domingues Pinto, ilustração Hugo C. Pinto

Culto do todo-poderoso

Há actores anónimos, animais de sangue devassado vermelho e quente a construírem-lhes os templos

A servir alguma majestade que dá o nome á peça

A servir o poder, em campânulas rendilhadas com o roubo que ofusca

Para permitir que o sangue azul-lazur corra nas telas

Para permitir que a magia aconteça envolta na ignorância

Em vigor o culto do todo-poderoso

De quem só chegam os incensos e o brilho do ouro

O cenário é uma máscara mortal

Nos bastidores tudo é permitido, é outra dimensão

Em cena, elásticos maleáveis, dobram-se até dar nós, contorcionistas

Há actores anónimos, animais de sangue devassado vermelho e quente a construírem-lhes os templos

Domingues Pinto, Fotografia Paulo Abrantes

O sol é mais imaginado que sentido

Aqui na Europa a falta de horizontes limita

Os fungos proliferam nestes prédios entre sombras e bafio

O sol é mais imaginado que sentido

E não me mexo para não desfazer a miragem de paz que a distância dá

Neste quarto virtual com paredes de vidro

Onde o clima é tropical e o silêncio de Marte

Recordo o Amor do Povo que conheci na montanha

A cobra gigante que brilhava de ouro

E o velho Manuel sempre a rir das suas histórias mágicas

Aqui tão longe do pulsar da terra

Sinto lhe o coração fraquejar

Intoxicado pelos brilhos distantes

Destas fábricas de civilização a fumegar cozinhados químicos

Venenos letais a que os ingénuos não resistem

Como é traiçoeira a distância e falsa a Paz

Neste quarto onde o silêncio começa a ser de morte

Domingues Pinto

Foto: Hugo Colares Pinto