A CEIA COM CIO (Asseia-te, Cação!)

Ceava ansioso em Seia o ciumento Idalécio Cação
sentado num bacio de cimento pouco asseado
cioso o Cação da graciosa caça que ciosamente tinha caçado

sobressaíam-lhe os cornos no rebanho (4)

dom pedro depois de matar os assassinos de inês encerrou-se com ela durante vários dias.

a necrofagia nesse tempo ainda era permitida

Mário da Costa

Fotografia Maria Ametista

Tiranete

metes e tiras constante
mente da mente
o tiranete da Net que
mente impune
mente
metes em tiras o tiranete da Net
atiras a mentira para a retrete
e vais curtir um tour de TIR
ou de trotinete
não há Net que te meta inerte

(o)missão missiva 3

(o)missão missiva 3

abri as janelas (duas vezes par sobre par) ao início da noite para encher a casa com os ares enfartados de frio. deve ser isto aquilo a que chamam crescer. durante dois minutos os papéis voaram, mal se segurando à parede. a caneta fez o este-oeste. há meses era capaz de me ter ralado ao ponto do espirro. agora, lá se foram os papéis. as fotocópias úteis depositaram-se contra a parede. anotações entraram-me pela luz do candeeiro adentro. deve ser isto a que chamam crescer. com um ou outro assomo de medo, mesmo que só com sintomas limitados. água fria. é preciso uma dose líquida de vontade para se conseguir entrar, outra igualmente translúcida para se poder sair.

entretanto, já tomei todas as providências para ser feliz. arranjei cebolinho fresco.

eee escrevo-te.

informei, casualmente, a senhora do café, a senhora do portão, a senhora que volta e meia passeia pela rua…elas encarregar-se-ão das restantes senhoras. casualmente hei-de comprar queijo, que me esqueci. e tenho de pedir outra via do boletim de vacinas que, vá-se lá saber como, perdi. temos vida, residual e ansiosa vida.

por fim, mudei tudo. o fundo do ecrã do computador, o toque e ecrã de boas vindas do telemóvel, o modo de apresentação de data&hora.

o som desta noite é macio e o jantar já desperta na sua cama de cebola e alho.

só não mudei a voz. nem a hora. essa só muda daqui a meses.

fotografia e texto de susana m. g. silvério

Gostava de reunir contigo para chegar a um consenso

Gostava de curtir contigo está a chegar o incenso Gostava de rir contigo
pra chagar o ambiente tenso Gostava de me divertir contigo pra chingar
o Zé Apreenso Gostava de sentir contigo práconchegar o bom senso Gostava
de sair contigo pra tomar um copo distenso Gostava de sumir contigo para purificar
o censo Gostava de partir contigo até nos afogarmos no mar imenso Gostava de reunir
contigo para chegar a um consenso Gostava de ir ao Rio Nir contigo com o Tigo
e consigo, penso.

o estranho caso do papalagui serial-killer de sedativos

o bolo da minha miúda passeia altivamente
pela mesa
enquanto o papalagui assassina ferozmente
mais um sedativo
num gesto furtivo
de rara subtileza

é fácil:
língua de fora como cobra letal
emborca dum trago
um copo cheio d’água natural
eis o crime consumado
eis perpetuada a redenção
cai de borco extenuado
cai redondo de escantilhão!

oulipo perto (2)

dirigiu-se ao isqueté em vão. tinha fé, a São, em arranjar uma

pré-colocação para o José João. Ia a passar em Pé de Cão quando

colocou mal o pé no chão e apanhou uma infecção. Expulsou o xulé

malsão antes de levar uma injecção e bebeu um chá de hipericão para

acalmar a decepção. mas era grande a inquietação: estava deitada no rés-do-chão,

mas sentia-se em pé no sopé de um vulcão. balbuciou “não há nenhuma conexão

na confecção desta rousselização” (1)! ali por perto, abanou a cabeça, o zé joão,

e disse que não, que não, talvez seja uma queneauzição (3), e esteja oulipo perto,

então…

 

(2) frases inusitadas para situações maradas

(1) Aparentemente não há nenhum sentido: há, felizmente, mas está escondido

(3) o neologismo é um neo-situacionismo!

e como?

foto texto ssilvério

e como?

propaga-se como cor em linho branco. não só metaforicamente. acredito nisto. nas afinidades de sangue de verbo solto. nos adjectivos descalços.
tal como acredito na solidez dos prédios. quanto a mim, todas as janelas dos prédios deveriam permanecer fechadas. poupava-lhes o ar de espanto, a suspeita de contágio.
o que parece ser essencial, penso enquanto destapo a manhã seguinte, é que já há poucos lugares na terra debaixo de água.
vai-se a pele, mas fica o corpo. o resto, ao todo muito, hão-de trazê-lo às colheradas.

gira-giras as palavras ao acaso e dizes: tanto faz. há que parar, não por respiração, senão por mistério do próprio nome. fico-me como posso. era preferível que pudéssemos ser outros, aqueles ali de olhos postos em nós.

o rapaz é estrábico, tem franja e um joelho esfolado.

– Olha… diz, sufocado, apontando para a minha cara.

às vezes a nossa voz não chega. só com vidro duplo.

começa-se cedo, porque no aproveitar é que está o ganho. porque fazemos coisas que no fim nem… nem sabemos por onde meter a colher.
eu olhava-o: sim. à colher ou ao colherim.

Ah, comme on est bien.

depois deixei de o ver. e no fim guardei as mãos.

Ora veja, quando eu era criança brincava sozinha e odiava bonecas. E agora aqui estou, a beber licor ao final das refeições, entre as gentes que não se crê mutilada. A indigestão é o mais torpe dos sentimentos, não crê?

justo tantas palavras na terra e parece que só escolhemos as mais encarquilhadas.

gosto de pensar que ao usá-las as absolvo. imagino-as em genuflexão e reza de contrição. por coisas pequenas, comuns. as banalidades também têm pernas curtas.

sem dares importância à minha voz rouca, desataste às gargalhadas.

eu cheguei a gostar daquilo. dias daqueles em que tudo parecia valer a pena. tu com o teu colherim a imitar ouro ou cobre ou lá o que era. manias. um olho vítreo aferroado pelo sol.

fui vê-lo ontem… mas eu já tinha saído. já estava perdida em mim.
e… como? perguntou.
comecei a receber postais, disse.
posts? esfregou o olho…
não, postais. chegaram um a um.
como?
como nunca chegarás a saber.

fotografia e texto de susana m. g. silvério

A prodigiosa pasmaceira de polegário panqueca, propensa ao prenúncio do precipício, prejudicando com pesporrência o próximo e o próprio

Polegário era o peneirento parolo da paróquia que pacoviamente petiscava pataniscas em permanente paranóia e em perfeita parceria com profusa percentagem da patusca e petulante parvónia da pindérica província. Parecia predestinado para a proverbial pobreza, e a perturbante peçonha que o passeava só o provava. Pardacento, poeirento (3), o pobre patego parecia procurar a própria psicose que precipita a personalidade na pretensa plenitude da paz podre. Previsivelmente, a pancada provinha de um passado perturbado, e prometia o paquiderme a puta de uma parafilia perene, que pene!, perdão, que pena! Porra para o pancas (1), porra, pim!(2)

(3) Peixoto, pára, por pavor!

(1) pasme-se: é perfeitamente perceptível que Pancas é o patético personagem P. Panqueca
padecendo de pirosa pancada!

(2) poderíamos permitir-nos polvilhar prudentemente o Pancas com pertinentes pozinhos de
perlimpimpim?!

Pereira no seu pior? Pois, paciência, pá! Pfff…

tributo ao rui costa (1972 / 2012)

ei-lo feito de árvore, erguido a um nome
crescente. a noite dos caminhos diz
– acende em mim a lâmpada, começa
a ser eterno, adita-me o teu rosto aonde voo. no
princípio, ouves a dor bulir os ramos, compreendes
para a conversa seguinte o diálogo
confuso de um rio no teu corpo.

fotografia de Miguel Manso

habitação social

MORO NUMA     CASA DE C     ARTÃO MOR     O NUMA CA     SA DE PLA
TEX NÃO T     ENHO ÁGUA     MAS TENHO     SABÃO NÃO     TENHO LUZ
MAS TENHO     LAMPIÃO M     ORO NUMA      CASA DE L     ATÃO MORO

NUMA CASA     DE PLATEX     NÃO TENHO     RETRETE N     EM  TENHO
KLEENEX N     ÃO  TENHO     CARPETE N     EM TENHO      KARPEX MO
RO NUMA C     ASA DE CA     RTÃO MORO     NUMA CASA     DE PLATEX

NÃO GOSTO     DA ESCOLA     SÓ GOSTO      DE COLA O     PAI  QUER
A PINGA E     EU A SERI     NGA MORO      NUMA CASA     DE  LATÃO
MORO NUMA     CASA DE P     LATEX NÃO     TENHO TRA     BALHO MAS

TENHO CAR     ALHO  NÃO     ANDO NU E     TENHO BOM     CU MORO N
UMA  CASA     DE CARTÃO     MORO NUMA     CASA DE P     LATEX TEN
HO CONA E     TENHO DUR     EX COMIGO     É  SEGURO     E RAPIDEX

MORO NUMA     CASA DE L     ATÃO MORO     NUMA CASA     DE PLATEX
MAS  ISTO     VAI MUDAR

derradeiro muro

Há dias em que uma folha branca ainda acorda
em mim o perfume do incenso.
As sombras das minhas palavras podem então alcançar
os céus como nenhum ouro.
Sacrifico um cordeiro branco nas cinzas
desses instantes e ofereço as vísceras ao poema.
Depois encosto-me ao derradeiro muro,
o dessas palavras despidas de anjos,
e abandono entre tijolos inúteis
alguns versos já frios.
Um poema é ainda uma porta
mas do lado de lá espreita o silêncio.

poema allo de péret revisitado

meu avião a arder nesta muralha de olhos de coral
meu precipício transtornado de papoilas loucas
minha onda pregada no céu pela mão da própria sombra
meu cobertor de espelhos ruivos
minha chuva de espuma preta
meu sepulcro rebentado
minha uva de turquesa
meu fruto colisão fantasmagórica
minha papila de míscaro
meu reflexo no teu reflexo gelado
perdido numa exposição de roupa branca
ainda rodeada por múmias
amo-te  ( hoje )

o cisne

Gritas e não gritas a longa lâmina que rasga
e da clara treva sabes e não sabes.
Querias ser só ausência,
sem beco nem corpo, apenas flor,
ou a sensação clara de respirar leve como uma praia.
Querias ser só ausência,
sem beco nem corpo apenas flor,
e és destino e bruma do destino
à espera em frente a um lago que desconheces.
Caminhas triste na lâmina e falas da clara treva
dos porquês sem fim e de uma velha rosa murcha.

(Chora assim o cisne queimado
pela cega marcha do tempo).