Da Mariposa

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(Deus é bom mas o diabo também não é mau)

Não seio o que é o tempo. Não sei qual a verdadeira medida que ele tem, se tem alguma. A do relógio sei que é falsa: divide o tempo espacialmente, por fora. A das emoções sei também que é falsa: divide, não o tempo, mas a sensação dele. A dos sonhos é errada; neles roçamos o tempo, uma vez prolongadamente, outra talvez depressa, e o que vivemos  é apressado ou lento conforme qualquer coisa do decorrer cuja natureza ignoro.

in Livro do Desassossego, (Deus é bom mas o diabo também não é mau) – Bernardo Soares

O criador do espelho envenenou a alma humana

O homem não deve poder ver a sua própria cara.

Isso é o que há de mais terrível. A natureza deu-lhe o dom de não a poder ver, assim como de não poder fitar os seus próprios olhos.

Só na agua dos rios e dos lagos ele podia fitar seu rosto. E a postura, mesmo, que tinha de tomar, era simbólica. Tinha de se curvar, de se baixar para cometer a ignomínia de se ver.

O criador do espelho envenenou a alma humana.

In Livro do Desassossego – Reflexões sobre a arte de Bernardo Soares

Remords posthume

Lorsque tu dormiras, ma belle ténébreuse,
Au fond d’un monument construit en marbre noir,
Et lorsque tu n’auras pour alcôve et manoir
Qu’un caveau pluvieux et qu’une fosse creuse;

Quand la pierre, opprimant ta poitrine peureuse
Et tes flancs qu’assouplit un charmant nonchaloir,
Empêchera ton coeur de battre et de vouloir,
Et tes pieds de courir leur course aventureuse,

Le tombeau, confident de mon rêve infini
(Car le tombeau toujours comprendra le poète),
Durant ces grandes nuits d’où le somme est banni,

Te dira: «Que vous sert, courtisane imparfaite,
De n’avoir pas connu ce que pleurent les morts?»
— Et le vers rongera ta peau comme un remords.

Charles Baudelaire

I am the escaped one

I am the escaped one,
After I was born
They locked me up inside me
But I left.
My soul seeks me,
Through hills and valley,
I hope my soul
Never finds me.

Fernando Pessoa

Compreendes isto?

É sempre a mesma coisa há meses, a mesma ansiedade sem causa, que não sei de onde provém. Parece que espero uma desgraça desconhecida, uma catástrofe que ignoro – e que nunca chegará. Que nunca chegará, ouves bem? … Vivo alheado, o cérebro espalhado por todas as coisas: apenas esta inquietação me domina e me enche. Se saio do sonho, não sei viver. Sobressalto-me com o menor ruído imprevisto: a porta que se fecha é para mim uma angústia. Compreendes isto? Antes a catástrofe que espero caísse sobre mim e me estatelasse no solo, do que este terror contínuo, a inquietação do que é vago, o aflitivo do nada…

Raul Brandão

“Home” no Museu

é passado e presente.

Presente quase esquecido de tão distante que está. A nossa própria natureza o proporcionou e conssumou assim.

Inalienável pelas raízes que nos prendem, no transporte e passagem pelo sentimento intrínseco de pertença e reconhecimento.

Home, onde nos sentimos bem, confortáveis.

Muitas vezes imperturbável, perturba. Impenetrável, penetra inevitavelmente.

Deixamo-nos levar e ascendemos às nossas origens, à pureza nua, despida.

Home presente, remete-nos para o oposto do real material. Remete-nos para o virtual, para o despersonalizar e afastamento físico.

No presente, o Home virtual toma lugar, ocupando assim e substituindo o insubstituível.

Home respira, faz-nos respirar. Todos os sentidos o comprovam.

De 8 Julho a 29 Agosto


O Deserto

Quando ceguei decidi ser fotógrafo.

O que me levou a tomar essa decisão foi (após prolongado período de escuridão absoluta) a quantidade de imagens surgidas no meu espirito.

Primeiro, desfocadas, sem contornos nem volume; depois, a pouco e pouco, os elementos que a compunham definiram-se, tornando-se reconhecíveis.

Pude ver, enfim, o que o meu espirito criara; e nenhuma das imagens (pelo menos que me lembrasse) se pareceria com que, porventura, vira antes de cegar.

Resolvi pedir auxílio a C. – descrevia-lhe com minúcia o que pretendia fotografar.

Se era uma paisagem, por exemplo, pedia-lhe que me encontrasse uma, em tudo semelhante àquela por mim descrita. C. passou a ser o meu olhar.

Mas C. não podia ver a minha paisagem, e eu jamais saberia se o que fotografava era igual, ou parecida, à que desejara fotografar. E, se por acaso descrevesse a mesma paisagem de B. (e não a C.) pedindo-lhe para, em seguida, me descrever a que via impressa no papel, apercebi-me de que não coincidiam quase nada.

As paisagens de C. eram, sempre, diferentes das minhas, B. confirmava o que eu suspeitava.

Apesar de tudo, continuei a trabalhar. Viajava na companhia de C. – íamos à procura dos lugares e das coisas que eu queria fotografar.

Dessa época, uma das fotografias (talvez a minha preferida) era de um grande rigor e simplicidade – uma estrada sumia-se na curva do horizonte, e a linha branca da estrada terminava num ponto situado no centro da folha.

Embora C. me dissesse que, numa das bermas da estrada, havia uma árvore. É pouco provável. Mas nada disso tem grande importância. A verdade é que eu não podia ver se havia ou não uma árvore na fotografia.

E C. também não podia confirmar a existência duma árvore dentro da minha cabeça.

Certo dia pedi a C. que me indicasse como fotografar areia. Grandes extensões de areia ou de água, de céu vazio.

B., ao ver uma fotografia dessa série, disse:

– Não está aqui quase nada. Algumas sombras, um pouco de luz e formas indefinidas.

Soube nesse instante, que tudo começara a coincidir – dentro e fora de mim.

Nunca precisei de C., nem de B. – desatei a fotografar sem ajuda. Escolhia o que desejava fotografar pelo tacto e pelo olfacto. Apontava a objectiva para o céu, para a água ou para as areias – disparava com a certeza de que as imagens que não via coincidiam com as que via.

Assim, ao fim de algum tempo, o que estava fora de mim passou a ser igual ao que estava dentro de mim – Luz e Sombra.

E foi com Luz e Sombra que iniciei, no papel, a construção da minha biografia.

Al Berto, O Anjo Mudo (Assírio e Alvim)

fotografia: Paulo Abrantes