derradeiro muro

Há dias em que uma folha branca ainda acorda
em mim o perfume do incenso.
As sombras das minhas palavras podem então alcançar
os céus como nenhum ouro.
Sacrifico um cordeiro branco nas cinzas
desses instantes e ofereço as vísceras ao poema.
Depois encosto-me ao derradeiro muro,
o dessas palavras despidas de anjos,
e abandono entre tijolos inúteis
alguns versos já frios.
Um poema é ainda uma porta
mas do lado de lá espreita o silêncio.

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o cisne

Gritas e não gritas a longa lâmina que rasga
e da clara treva sabes e não sabes.
Querias ser só ausência,
sem beco nem corpo, apenas flor,
ou a sensação clara de respirar leve como uma praia.
Querias ser só ausência,
sem beco nem corpo apenas flor,
e és destino e bruma do destino
à espera em frente a um lago que desconheces.
Caminhas triste na lâmina e falas da clara treva
dos porquês sem fim e de uma velha rosa murcha.

(Chora assim o cisne queimado
pela cega marcha do tempo).

Fórmula mágica

Deixai-me invocar em paz
os últimos três desejos do cego
o derradeiro sonho do coxo,
o sentido primeiro do mudo.
Permiti-me correr pelo sangue
na vontade aguda do surdo,
na noite flácida do impotente.
Quero sorrir com o maneta
das palavras sem tronco,
quais tocos dos vossos sonhos,
e esperar, como o leproso,
o beijo redentor que ninguém traz.
Mulher estéril, não te julgues
a sereia que não és.
Seres inacabados,
misturem o ranho com as lágrimas
e aproveitem a lua cheia  p’ra mirrar.

Paulo Ramalho, publicado em liberatura, cadernos 5