O demolidor da rua formosa e o Corto Maltese da ilha do Faial

I

A banda desenhada é inseparável do reino azul da infância. Para que lhe façamos a mais completa justiça, só nos resta despir, por um momento — de ousio ímpar —, o sisudo traje do editorial. Entreguemo‑nos, então, à nua fantasia da crónica, que há‑de trazer consigo, por certo, a perigosa vontade de vasculhar velhos papéis. Devemos lê‑los, de resto, com a demorada cautela do historiador incréu, que não ignora o complexo de superioridade da memória. Sem esquecer a metodologia do engano, bastar‑nos‑á, doravante, o brilho do itálico, a simpatia do leitor e o abandono do plural de modéstia. Continuar a ler

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FRAGMENTOS DE UM DIÁRIO POR ESCREVER [VII]

Três centímetros de pele sucumbem à guerra das trincheiras. Quem coça perdidamente a ferida que lhe cega a alma perde o mundo. Pela impossibilidade de não o fazer, jugo agridoce, mata a mão (invertendo aqui o seu destino natural) a vontade. Do seu frenesi, doloridamente doido, não temos senão o símile violento do coito.

Eurico de Carvalho

[Primeira Publicação: In O Tecto. N.º 60. 2008 (Fevereiro), p. 4.]

Diálogo minimalista [I]

 

A — Já não acredito em ninguém!

B — Nem mesmo em ti?

Autor: O Inquisidor

Relator: Eurico de Carvalho

[Primeira Publicação: In O Tecto. N.º 56. 2007 (Julho), p. 7.]

DAR VOZ ALTA À POESIA [V]

AMAR

(Para Almeida Garrett.)

Não sei, amor, amor que não amar,

nem vinho que em mim não seja ceia.

Bebê-lo é termos lenha que se ateia,

quando a Lua encontra o seu lugar.

Amar, amor, é ser maior, amigo

de quem colhe em nós o nosso alor.

(Sabê-lo-ei colher eu, que o digo,

se além destas palavras não for?)

Não sei amar, amor, senão por ti,

mas sempre, mulher, confesso!, menti

por haver outra a seguir ao beijo.

Não sei, se não te amo, amor, amar-te

por ser por mor de mim o meu enfarte.

Amar, amor, era amar sem desejo!

Eurico de Carvalho

In «O Tecto»,

Ano XVIII, n.º 56,

Julho/2007, pág. 13.

Dar voz alta à poesia [IV]

E. and I

Ouvir-te é como se fosse marinheiro
de regresso a casa: Ulisses
dançando com Penélope.

Sentir-te é ser o perfume que te abre passagem
n’el mezzo del cammin di nostra vita: Dante
acenando a Beatriz.

Ver-te é como se tu fosses música
acesa em viva carne: Pedro
lembrando Inês.

Tocar-te, porém, é outro incêndio: pura alacridade,
corrente eléctrica nunca alterna
lavrando a adolescência do porvir.

EURICO DE CARVALHO
In «O Tecto»,
Ano XIV, n.º 37,
Julho/2002, pág. 2.

Dar voz alta à poesia [III]

Doze de Novembro por Eurico de Carvalho

Entraste em minha casa ainda com certeza

de haver luz em Novembro. Mas doze eram

os dias, se bem te lembras, mulher, desse mês

incandescente. Deste-me logo o braço para a dança

das palavras: castanhas docemente assadas e muita

água-pé. (Estava, quando vieste, à espera do ouro

dos versos.) Pois não tremeste perante a juba negra

de um leão quase jovem, de partida para o Inverno.

Dos livros que cedo li tiraste-lhes o peso do pó

sábio. E se agora escrevo no Verão, meu amor,

só tu sabes porquê. (Deixa-me dizê-lo a toda a gente.)

Eurico de Carvalho

In «O Tecto» (Fevereiro de 2006).

(N.º 52, p. 10.)

TRÊS CONTOS DE UM CENTO

I

 

UMA RECORDAÇÃO DE INFÂNCIA DE LEONARDO DA VINCI

 

«Estava eu no berço, quando um abutre desceu sobre mim e me abriu a boca com a cauda. Bateu‑me várias vezes com ela nos lábios. Esse parece ser o meu destino.» Qual? Querendo desembrulhar o segredo, a mente de Sigismundo fitou lentamente a estatueta egípcia com que marcava a página do caderno de Leonardo: «Ei‑la! a ave da morte, hieróglifo da mãe!» E, com a certeza do erro da tradução alemã, registou para sempre a sentença: «fantasia homossexual passiva». Desde esse dia, do milhafre, a cauda longa e volumosa assombra a análise.

 

II

 

O APRENDIZ DE VERROCCHIO

 

A notícia galgou a loja e rompeu pelas ruas de Florença: o bastardo pintara o anjo mais vivo do quadro do mestre! Estava pronta aquela que seria a derradeira pintura de Andrea del Verrocchio: Baptismo. Porque simplesmente emudecera perante o toque devoto da mão esquerda desse rapaz de pouquíssimas falas. Dele apenas, o anjo, qual recém‑nascido, de inéditos caracóis bastos, reconhecia agora a leveza do céu. De vergonha, porém, corava surdamente o pincel cheio de terra das restantes figuras. Resignou‑se a ser por isso mesmo (com o orgulho infindável dos fortes) o famoso ourives que era. 

 

III

 

FUGA DO ÚLTIMO PATRONO DE LEONARDO

 

Febril, a pena corre sobre o papel. Francisco I, rei de França, lembra à mãe a honra que lhe resta, que a vida está salva. Prisioneiro em Madrid, nem a morte, que era a sua arma, fora avante. Esquece o frio recordando as conversas com Leonardo. No Palácio de Verão, ressoava a pergunta: «Que é mais próximo do homem: seu nome ou imagem?» O pintor defendia a soberania do visível. Mas só um uomo senza lettera poderia desconhecer a real grandeza do nome. Que um rei se disfarce, pois, de escravo negro — e fuja!

 

Eurico de Carvalho

[Primeira Publicação: In O Tecto. N.º 68. 2010 (Setembro), p. 14.]

Dar voz alta à poesia [I]



Anunciação por Eurico de Carvalho

Nem sei como dizer-te a alegria com que espero
a palavra mais lúcida, secreta e semovente.
Dela, sabe-lo, se alimenta em pleno espaço
a incerta rotação dos amantes e a certeza
de ser seu o repouso. Seja ela a rosa de cristal
que amanhece em tua boca adolescente. E, crê,
por entre o orvalho — hálito da manhã —,
nunca será nosso o esquecimento do Sol.

Eurico de Carvalho

Poema publicado em Dezembro de 2002 no jornal «O Tecto» de Vila do Conde (Ano XIV: N.º 39). Cf. página 2.

FRAGMENTOS DE UM DIÁRIO POR ESCREVER [VI]

Tenho momentos de leitura (de ver‑me livre de mim!) de pura bulimia. Navego então pelas estantes como quem busca a ilha nunca vista dos olhos azuis da infância. Com os recursos austeros do acaso, recruto de uma só vez a longa série militar de livros de ar fradesco. Encurtando o olhar, qual cego pedinte, consigo folheá‑los com a pressa das lebres. Mas logo a impossibilidade de os ler nesta vida invade o espaço do pó que me cerca. Sobe‑me à boca, súbito, um desgosto: toda a biblioteca parece imitar a pedra tumular da vera morte. Inexplicavelmente.

Eurico de Carvalho

[Primeira Publicação: In O Tecto. N.º 60. 2008 (Fevereiro), p. 4.]

FRAGMENTOS DE UM DIÁRIO POR ESCREVER [V]

Enquanto crescem as tardes, na sua lentíssima despedida do Inverno, encurta‑se a vida de quem escreve há quase trinta anos. Não lhe dá descanso o pensamento, assassino, de que possui mais passado que futuro. Lá fora, caindo com a fúria calada dos obsessivos, mima a chuva miudinha um cerimonial antigo: o silabar interminável de um lavrador de palavras cegas.

Eurico de Carvalho

[Primeira Publicação: In O Tecto. N.º 60. 2008 (Fevereiro), p. 4.]

PAI NATAL: 1 — MENINO JESUS: 0

Haverá palavras novas para uma quadra milenar? Será possível? Admitindo até que algures haja ainda algumas, não serão velhos os pavilhões auriculares? E dos olhos — diremos nós o quê? Deglutidos pelas luzes da cidade, tornaram‑se absurdamente cegos: não lhes falta a vista, mas não querem ver. A criança que neles morreu calcou, qual flor sem fruto, a pergunta que mais importa: «Onde está o presépio da minha infância?» Para fugir à resposta, buscam salvação num centro comercial: as barbas do Pai Natal bem merecem a diarreia de compras. 

Eurico de Carvalho

[Primeira Publicação: In Montr@ d@s Letr@s e d@s Idei@s (5 de Dezembro de 2006).]

FRAGMENTOS DE UM DIÁRIO POR ESCREVER [IV]

Interrogas‑te sobre o que em ti busca o silêncio. Interrogaste até o olhar dos próprios gatos! Mas não tens aí o tempo de o barulho em volta despir essa dignidade antiga — a de ser a mais insuportável capa alegre para o adiar da obra?

 

Eurico de Carvalho

[Primeira Publicação: In O Tecto. N.º 60. 2008 (Fevereiro), p. 4.]

FRAGMENTOS DE UM DIÁRIO POR ESCREVER [III]

Quando os demónios andam à solta dentro de nós, escapando à chibata dessa água desalmada que ainda cai do céu, o melhor, por vezes, é deixá‑los ir. (Hão‑de cansar‑se um dia.) E se lhes desse música? Não disse algures Lutero que era mezinha santa para os maus pensamentos? Não disse ele, aliás, ser a arte eleita pelo ódio do Diabo? Pois sim! Quem não dança à noite ao som do rock‑and‑roll?

 

Eurico de Carvalho

[Primeira Publicação: In O Tecto. N.º 60. 2008 (Fevereiro), p. 4.]

 

FRAGMENTOS DE UM DIÁRIO POR ESCREVER [II]

Pode a vida de uma pessoa ser salva por um livro? Esta pergunta pertence à matriz da nossa civilização. Somos filhos de um Deus que escreve, mas não sabe dançar. Escravos de olhos grandes, temos pernas curtas.

 

Eurico de Carvalho

[Primeira Publicação: In O Tecto. N.º 60. 2008 (Fevereiro), p. 4.]

 

Sem Palavras [II]

 

Sem palavras. — Terça-feira, 1 de Maio de 2007, 18h17.

 

Eurico de Carvalho

[Primeira Publicação: In Montr@ d@s Letr@s e d@s Idei@s: 1 de Maio de 2007).]

CEM PALAVRAS [V]

Urgeiriça. — Segunda-feira, 25 de Dezembro de 2006, às 11h23.

Para que serve uma chave? «Pergunta fútil!» — dir‑me‑á quem não for além da brutalidade da matéria. Mas se não poluirmos os olhos com a excessiva imagem da coisa à vista, seremos capazes de abrir e fechar outras portas. O poder do símbolo é bem real, levando o pensamento a gatinhar de novo: criança suspensa entre o dia e a noite. Pode, pois, o mundo retornar à santa manhã dos porquês, enquanto o escriba, arfando, desacorrenta o discurso do colete‑de‑forças da ciência. Pede‑se‑lhe mais: a criação da máquina de fazer nevoeiro. Para quê? Para roubar à fechadura a felicidade da chave.

Eurico de Carvalho

[Primeira Publicação: In Montr@ d@s Letr@s e d@s Idei@s (http://euricodecarvalho67.blogspot.com/: 22 de Fevereiro de 2007).]

CEM PALAVRAS [IV]

Vila do Conde, 31 de Agosto de 2006: Capela de Nossa Senhora do Bom Socorro.

Talvez seja a milésima imagem da Capela de Nossa Senhora do Bom Socorro. Não será a melhor, mas pelo menos (perdoai‑me o alarde!) merece o contraste objectal — cruz versus candeeiro — a reflexão de quem vê. Por força do enquadramento, os olhos não alcançam a quadra de Régio: «E o Sol desmaia na cal / da capela a branquejar / da Senhora do Socorro / onde sonhei me ir casar.» Private joke? Adiante! Atentemos antes no sonho oriental de Gaspar Manuel, piloto da Carreira da Índia. Exemplo maior do chamado «revivalismo indiano», tornou‑se matéria‑prima do olhar em 1603. Que certeza imorredoira!

Eurico de Carvalho

[Primeira Publicação: In Montr@ d@s Letr@s e d@s Idei@s (http://euricodecarvalho67.blogspot.com/: 5 de Novembro de 2006).]

CEM PALAVRAS [III]

Terra: 25 de Dezembro de 2006, pelas 11h05.

«Honni soit qui mal y pense.» — São minhas as botas, devoto leitor. É certo: ainda têm o brilho de quem pouco andou com elas. Assim respondo — sem receio — à sua dúvida matreira. Estarei, pois, a parodiar Van Gogh? — perguntar‑me‑á. De modo algum! E nem sequer se trata aqui de um capricho meu, mas de um desejo sadio: pôr os pés na Terra. Nesta civilização do automóvel e do asfalto, quantas vezes o fazemos? Talvez nunca tenha pensado nisso. Seja como for, quando sair de casa, terá vindo o tempo de louvar as plantas desses incansáveis calcantes pelo chão que pisam.

Eurico de Carvalho

[Primeira Publicação: In Montr@ d@s Letr@s e d@s Idei@s (6 de Janeiro de 2006).]

Sem Palavras [I]

Sem palavras. — Sábado, 28 de Abril de 2007, 19h10.

Eurico de Carvalho

[Primeira Publicação: In Montr@ d@s Letr@s e d@s Idei@s: 28 de Abril de 2007).]