e como?

foto texto ssilvério

e como?

propaga-se como cor em linho branco. não só metaforicamente. acredito nisto. nas afinidades de sangue de verbo solto. nos adjectivos descalços.
tal como acredito na solidez dos prédios. quanto a mim, todas as janelas dos prédios deveriam permanecer fechadas. poupava-lhes o ar de espanto, a suspeita de contágio.
o que parece ser essencial, penso enquanto destapo a manhã seguinte, é que já há poucos lugares na terra debaixo de água.
vai-se a pele, mas fica o corpo. o resto, ao todo muito, hão-de trazê-lo às colheradas.

gira-giras as palavras ao acaso e dizes: tanto faz. há que parar, não por respiração, senão por mistério do próprio nome. fico-me como posso. era preferível que pudéssemos ser outros, aqueles ali de olhos postos em nós.

o rapaz é estrábico, tem franja e um joelho esfolado.

– Olha… diz, sufocado, apontando para a minha cara.

às vezes a nossa voz não chega. só com vidro duplo.

começa-se cedo, porque no aproveitar é que está o ganho. porque fazemos coisas que no fim nem… nem sabemos por onde meter a colher.
eu olhava-o: sim. à colher ou ao colherim.

Ah, comme on est bien.

depois deixei de o ver. e no fim guardei as mãos.

Ora veja, quando eu era criança brincava sozinha e odiava bonecas. E agora aqui estou, a beber licor ao final das refeições, entre as gentes que não se crê mutilada. A indigestão é o mais torpe dos sentimentos, não crê?

justo tantas palavras na terra e parece que só escolhemos as mais encarquilhadas.

gosto de pensar que ao usá-las as absolvo. imagino-as em genuflexão e reza de contrição. por coisas pequenas, comuns. as banalidades também têm pernas curtas.

sem dares importância à minha voz rouca, desataste às gargalhadas.

eu cheguei a gostar daquilo. dias daqueles em que tudo parecia valer a pena. tu com o teu colherim a imitar ouro ou cobre ou lá o que era. manias. um olho vítreo aferroado pelo sol.

fui vê-lo ontem… mas eu já tinha saído. já estava perdida em mim.
e… como? perguntou.
comecei a receber postais, disse.
posts? esfregou o olho…
não, postais. chegaram um a um.
como?
como nunca chegarás a saber.

fotografia e texto de susana m. g. silvério

Anúncios

Deixe uma Resposta

Please log in using one of these methods to post your comment:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s