João Damasceno, já agora

Em terra de cegos quem tem um olho é rei;
quem tem os dois é frequentemente abatido.

João Damasceno in CORPO CRU Fenda – 1983
ilustração de hugo colares pinto 2010
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Nova carta aos psiquiatras

Disseram que ia ser confortável, que ia ficar tranquilo

Deram-me os vossos comprimidos:
Quero masturbar-me e não posso

Onde está a minha solidão? Quero a minha solidão
Onde está a minha angústia? Quero a minha angústia
Onde está a minha dor? Quero a minha dor

Deram-me os vossos comprimidos:

Engordei e fiquei lustroso como um gato a quem tivessem cortado os tomates

João Damasceno

SIÃO, org. Al Berto, Paulo da Costa Domingos, Rui Baião, Lisboa, 1987, republicado por Eu Ela e a Escrita

alma fria Sketches Policiários

1.

Alma-Fria levanta-se à entrada de uma cliente: uma camisa e um casaco azuis escuros cingem-lhe o busto, uma saia curta, apertada, faz sobressair as pernas. Lábios e unhas vermelho vivo. Alma-Fria olha atentamente para o rosto oval, os olhos verdes e o cabelo negro curtado curto. Repara na chávena de café vazia e com o indicador raspa lentamente o açúcar que resta chupando depois o dedo. Olha mais uma vez para a mulher de pé na sua frente e diz-lhe que se sente. Levanta-se, dá uma volta na sala, aproxima-se do corpo sentado e observa-o com vagar antes de se retirar para detrás da secretária onde se volta a sentar. Volta a levantar-se para pegar ao colo na sua cliente que pousa em cima da mesa. Levanta-lha as saias e penetra-a. Saindo-lhe de cima o detective o detective volta a sentar-se na sua cadeira. Ela, por sua vez, depois de ajeitar a roupa reocupou o seu primitivo lugar.
Alma-Fria brincando com um elástico, enrola-o em volta de dois dedos conseguindo assim uma fisga. Introduz-lhe um pedaço de papel amassado, estica a borracha, faz pontaria e acerta no nariz da mulher.

2.

Alma-Fria olha para a rua através da janela do seu gabinete.

Uma criança que passa mostra-lhe a língua. Alma-Fria sai para a rua e dá-lhe dois pontapés deixando o garoto inanimado. Volta para o interior, senta-se à secretária e enfia um lápis na boca, horizontalmente, de modo a ficar com as bochechas em bico.

3.

Alma-Fria entrou no bar e pediu ao balcão uma água Cruzeiro. Encheu um copo e equilibrou-o nas costas da mão esquerda.

4.

Alma-Fria está sentado à sua secretária. Observa fascinado o voo de uma mosca. De um gesto rápido aprisiona-a no côncavo da mão direita. Espreita cautelosamente e retira o insecto entre os dedos médio e indicador da mão esquerda. Esmaga-o lentamente após o que, chupa com ruído ambos os dedos. Leva os polegares aos suspensórios enquanto se recosta para trás na cadeira, acaricia a coronha do revólver aconchegado num coldre de cabedal negro junto do sovaco esquerdo.
Alma-Fria tira o relógio de pulso e dedica-se a extair-lhe o vidro circular com toda a cautela. Aplica-o no olho direito e usa-o como se fosse um monóculo.

5.

Tezão-Sexual entrou pelo gabinete dentro e encarou Alma-Fria.
Com uma acrobacia da língua mostrou, apertado entre os lábios, um seixo redondo, amarelo, brilhante e húmido da saliva de Tesão-Sexual.

6.

A velha mulher que limpa, todas as quintas-feiras, o gabinete de Alma-Fria esfrega activamente o soalho.
O detective levanta-se da sua mesa de trabalho, aproxima-se do corpo acocorado, arregaça-lhe as saias e mete-lhe um dedo no cu, fazendo-o deslizar no orifício algumas vezes. Retira-o e ajeita a roupa da mulher que entretanto continuara a trabalhar. Volta para detrás da secretária, descalça o sapato e ata-o em volta do pescoço, usando-o como um colar.

7.

Alma-Fria olhou para o própria barguilha aberta donde saltava o pénis electricamente erecto. Pousou-lhe a mão e acariciou-o. Durante um momento o sexo pareceu-lhe de plástico.

João Damasceno

publicado em papel como Fenda Revista de Luxúria, nº 1, Director: Vasco Sérlei,Coimbra, Janeiro de 1986. Publicado em liberatura, cadernos em março de 1997, com autorização do autor.