lição das ondas

mão áspera a passar os dias a limpo
como sorvendo manhãs de chuva
mordendo amiúde a lição das ondas

desprecisar

é um exercício de linguagem. o que sobra

transposição das ravinas que seguram o voo das aves

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Falar sobre quê?

Sobre as chagas
Sobre as côdeas
Sobre as ratazanas cinéfilas e os seus lóbis
Tenho as palavras presas
Não acompanham a velocidade pró caos
Como turista fico boquiaberto com as medusas
A petrificarem a humanidade daquilo a que chamam povo
E continuam a chegar como raios de sol ao planeta
Lázaros em carne viva
Para consolo dos gordos luzidios abraçados a César
Os leões… Palitam os dentes imunes à lepra

fotografia de Sandra Guerreiro

poesia para uma fotografia de Pedro Polónio

pedro polónio

sou um homem e pinto.
acontece-me frequentemente sair de casa
para escolher uma mulher na rua,
uma desconhecida, alguém cujo rosto seja um poema,
ou simplesmente um rosto. Continuar a ler

faltavas tu

era um sono meio in-
completo faltavam tu-
lipas mas era o tempo futuro onde
me seria dado habitar. os humanos Continuar a ler

tributo ao rui costa (1972 / 2012)

ei-lo feito de árvore, erguido a um nome
crescente. a noite dos caminhos diz
– acende em mim a lâmpada, começa
a ser eterno, adita-me o teu rosto aonde voo. no
princípio, ouves a dor bulir os ramos, compreendes
para a conversa seguinte o diálogo
confuso de um rio no teu corpo.

fotografia de Miguel Manso

tudo cabia

com um pescoço de soslaio fazia dos dias cal e das tábuas paredes. tudo cabia nelas. até o primeiro segundo. adormeceu depois aos som quente das figueiras.

tomava como certa a água cheia. uma atitude eficaz. engavetava as trovoadas com precisão. depois ao terceiro dia minimizava o impacto das janelas nas cores e esperava.

pulsos. abnegados

à porta da lama abrem-se os pulsos. abnegados
tornos que accionam a combustão. como se fogo e vento
fossem a mesma faúlha. como se

os justos sucumbissem ao mosto
das noites. safra esplêndida e mortal.
cerram-se os dentes. depois as pálpebras.
sofreguidão. depois
continuamos o ornamento do território.

passear mutuamente a solidão

temos para já isto em comum: podemos
passear mutuamente a solidão. seguro as nozes
entre os dedos partes num sussurro chegam
os pedreiros a fio de prumo uma equação impenetrável
atrás da janela um barco adiando o seu adeus. assim
se erguem os ladris quando regressares amanhã
uma frase adormecerá no sofá – sim, até porque
ele é um bom estratega – disseste, ficarei sentado
com o copo na mão olhando o jardim e verificando
a três um jogo de dois. esbate-se o som do ferro
sobre a pedra. pela tua janela risco definitivamente
a folha de papel fabricando barcos lagos cisnes
velhos morrendo pelos bancos e um puto a
reconstruir remoinhos
a partir do dedo. podia gozar com a tua frase
ou deitá-la ao tanque, os cisnes abrindo e fechando
o bico, muito rapidamente. de qualquer forma
ele nem sequer é um bom estratega, o barco
afunda-se rapidamente. despedir reaparecer
desaparecer despir depois de adormecer. amanhã
os pedreiros regressarão ao seu caos de cimento
desalinhando em toda a parte vestígios

de um jogo a dois três ou mesmo dois.

Sete

Sete homens foram presos
quando pela noite
os cabelos puxavam
a uma rapariga.

Algures na cidade
eles só buscavam
o dia sumido.
“Olha ali o sol”

– dissera um
na solidão do Metro. Era
uma cabeça loira

– e mal os raios tocaram acesos
ali se prenderam
e foram presos.

poema de Pedro Alvim, imagem O Eco de Paul Delvaux, roubado de um recorte de jornal, aposto que do Diário de Lisboa.

fugir de casa

entre a infância e as pequenas regras de
apenas as crianças vírgula
têm dois pontos
vontade e cestos de vide
para
fugir de casa.
não o fazem
apenas deixam ficar
o frasco no armário. assim: si-
lêncio. fazer isso tudo já
antes mesmo sem arregaçar as mangas.
camisas sujas nos braços, os cantos
da despensa são o refúgio dos deuses.
esferográficas bic fina como metáfora
alguns processos no conhecimento
da solidão. dois pon-
tos parágrafo e travessão.

a manta de minde

os movimentos desta situação operam
entre a suavidade das crianças
e a imaturidade dos outros.
sou singelamente um colega colaboro, vendo
serviço cumprido e aguento
a paciência de saber o
que ainda me falta cumprir.
os movimentos são apenas a aparência
movem-se outras estranhas e
ocultas forças dentro deste perímetro.
o vento seco aperta, frio e com vagar.
o teu cheiro ficou nos lençóis. faço a
cama. agora estou-me a lembrar de ti

a partir do nariz
ficas contente?
estico finalmente a manta de minde, frio e com vagar.