aurora

Desapertei a gravata preta para melhor respirar o vento que a tarde fresca me atirava. A terra seca estalava-me debaixo das botas novas. Todos os enterros me entristecem, aquele por ser do primo João, tinha-me destruído por dentro. Não somos nada. A mocidade corava-nos as faces quando, vindo lá donde veio, me começou a tratar por primo. Ajudava-o a esquecer a falta de família e assim, ao menos, tinha um parente. A mim, mais primo, menos primo, não me fazia diferença. Parece que ainda o vejo, a olhar-me e a sorrir. Não somos nada. A tarde atirava-se para trás das oliveiras, a cal das minhas paredes mostrava-se ao fundo da estrada. Apertei a gravata preta, que a minha mulher nunca gostou de me ver mal arranjado, a fazer ruim figura.

Caminhava no quintal, debaixo das parreiras, no momento em que, espavorida, a prima Júlia me saíu disparada pela porta da cozinha. No breve instante em que passou por mim, disse apressada: ” Não entre, primo! É agora!” – Como se a terra me tivesse engolido até aos joelhos, fiquei ali abobalhado a pensar na minha Alzira: Seria desta? Cinco meses de cama, rodeada de todos os cuidados, a comer só grelhados e cozidos, cinco meses assim deveriam fazer algum efeito… Os três filhos perdidos, duas raparigas e um rapaz, apertavam e pesavam-me no peito, como se os carregasse presos ao coração.

Sem perder tempo a falar, a cumprimentar-me sequer, passaram por mim, primeiro a prima Júlia e a Dona Clotilde, já equipada de instrumentos e engenho, depois a tia Paulina do Coxo, a Rosa do Pires, a Alice do Padeiro e, por fim, a Joana Solteirona. A tarde tornou-se noite. Juntei a coragem e cheguei-me à janela.

 O candeeiro de petróleo, suspenso do tecto, iluminava a casa de uma luz amarela que, por ser familiar, me dava confiança. A minha Alzira estava no meio da cozinha, deitada sobre a mesa onde fazíamos todas as refeições. No fogão, duas panelas de alumínio libertavam um vapor que, daquela posição me parecia sólido. Parada junto à parturiente, a velha Clotilde dava ordens. Sob o seu olhar, as mulheres corriam, entrando e saíndo pelas portas. Umas traziam toalhas, outras alguidares, outras cobertores. A Joana Solteirona, com a ponta dos dedos, fazia festas à minha Alzira. Tinham-lhe solto os cabelos sobre o travesseiro, suava muito, via-se que sofria. Orientada por um relógio que só ela parecia entender, a velha Clotilde arregaçou as mangas e dispôs uma tesoura, uma tenaz e outros objectos metálicos sobre a velha cadeira de palha. A mais aflita das mulheres tirou as panelas do fogão. Dirigindo-se finalmente a quem mais precisava de ajuda, a anciã levantou-lhe os joelhos e afastou-lhe as pernas. Nesse instante, todas, em simultâneo, cercaram a minha mulher.

De cada vez que a velha se debruçava sobre ela, via-a arregalar os olhos e esgarnar gritos aos lábios. Ajoelhada à sua frente, aterrorizada, a Rosa do Pires ia torcendo uma toalha , agora tingida de rubro-vivo, sobre um alguidar esmaltado que se enchia de água avermelhada.

Cadenciadas por gemidos estiveram nisto tempo e tempo até que, de um impulso, a parteira se desprendeu das outras e se chegou a mim no quintal. Temi-a. Temi-lhe a pergunta que, por três vezes me fizera e três vezes me desesperara. Uma questão simples, a mais simples e a mais complicada, a mais terrível. Distante, como se me falasse de outro país, apontou-me um olhar azul-gélido e, séria, serena, disse: “Só pode sobreviver um. Quer a mãe ou o filho?” – Sem acreditar, olhei-a basbaque de dor. Uma questão simples, a mais simples e a mais terrível de tão complicada. O amor de pai ou de marido? Matar um pouco de mim ou morrer um pouco de mim? A mágoa ou a angústia? A eterna saudade ou a falta eterna? Desesperado, com os olhos marejados e as ideias em correntes turvas, desci a mim e, de novo, pela quarta vez, me perguntei : Como posso matar a minha mulher? A minha companheira, sempre fiel, a minha amiga… E como posso atravessar sob a foice da morte o meu filho? Pobre anjinho inocente que nunca correu como as outras crianças, que nunca brincou como as outras crianças, que nunca sequer viu, sentiu o sol… Desesperado, tapei a cara com ambas as mãos e cuspi alguns, poucos, sons desarticulados. Como veio, voltou para a cozinha. Uma cortina de lágrimas abriu-se-me sobre o olhar, fiquei só.

Ainda olhei uma última vez pela janela. Ainda vi a parteira enfiar a tenaz, vi a minha Alzira fazer força suficiente para arrancar um sobreiro pela raiz, para empurrar o mundo um centímetro. Depois, sentei-me no poial entre gritos que rasgava de si e, directos, se espetavam em mim, como se a agonia fosse lâminas finas e afiadas. A noite passeava-se mansa. Ali sentado, chorei lágrimas poupadas sobre o meu pai e o meu irmão. Chorei e esqueci desejos para sempre.

Indómito, distinto de todos os outros, um grito negro, envolvente e fundo como um oceano, abriu um curto respirar. Silêncio. Límpido, seguiu-se um outro grito, este de vida, de graça, de criança. Desapertei a gravata preta.

Chegou-me carregado por passos seguros. Era um rapaz. Envolvi-o todo num abraço. Senti-lhe a pele, grossa e fina, e o calor que escondia no corpinho. Olhei-o longamente. Sei que me olhou e sorriu. Abracei-o. Prometi-lhe tudo. Olhei-o de novo e decidi, nesse momento, chamar-lhe João.

Na cozinha, sobre a mesa onde fazíamos todas as refeições, jazia a minha Alzira, morta e cansada. Arrumei-lhe a cabeça ao colo e fiquei ali até o dia nascer e a sua luz ma levar.

josé luís peixoto

photo de g000nz0
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gente d’algo

Oceanos de trigo, ondulados longamente por brisas suaves e leves, cercavam a vila. Dentro da vila cabiam, pelo menos, meia dúzia de ruas calcetadas, uma centena de casas, um jardim de oito laranjeiras e três bancos vermelhos uma capela, uma padaria, uma mercearia, uma taberna e uma feira, em Maio. Pontilhados sobre as marés de trigo, na distância da planície, sobreiros fechavam-se em reflexões vedadas às consciências humanas. E o mundo, alheio ao suor desse último esforço, o mundo, tudo o que o estio queimara, o mundo estendia-se no fresco peneirado sobre a vila. Nas ruas, à porta das casas estavam os homens estendidos, descalços, de camisa desabotoada, e as mulheres estendidas, descalças, de pernas afastadas. Frente aos silêncios, sentados nos poiais ou em banquinhos de madeira, a luz, poalhas vermelhas, caía e, por pequenos buracos, entrava na terra. Sempre nesse momento, às vezes sem mexer os lábios, a gente sorria. Os sorrisos cresciam na certeza, na alegria da manhã seguinte gerar um sol e, de novo, a luz. De entre as casas, só a taberna era diferente. Era baixa, como todas; era branca, como todas. Só baixa, só branca, não tinha barra, tinha os corpos dos homens marcados na cal. Quem entrava pela porta sempre aberta, descia um degrau e ficava ao balcão. Entre a porta e o balcão encaixavam-se duas mesas, com tampos de mármore picado pelo fundo dos copos vazios, e seis bancos coxos. Para lá do tampo, também de mármore, do balcão, repousava um barril de branco, outro de tinto, copos virados a escorrer água, pacotes de bolacha Maria, o olhar do taberneiro e uma escadinha que ligava à casa deste. Por cima das cabeças, uma telefonava salivava as músicas roucas da Emissora Nacional. E era a taberna, era o banco mais coxo que sentava Faustino Peixoto. Tanto leu que tresleu, diziam as mulheres se o viam passar. Ele, na gabardina manchada de azul-escuro, sob a boina acastanhada e preta, atrás dos óculos grossos de vidro, sobre os sapatos routos e achinelados, passava. Tanto leu que tresleu, diziam. Ele, de mãos dadas no fundo das costas, espalhava um zumbido, constante de palavras incompreensíveis à gente da vila. E as mulheres olhavam-no. Tanto leu que tresleu, diziam e, baixinho, lembravam-se da história. Lembravam-se do pai, Francisco Peixoto, e da maneira como vendeu herdades, a Courela do Mochão e a Tapada Russa com a ideia de pôr o filho em Coimbra; lembravam-se do esgotamento, da perca de razão, e de como o pai vendeu tudo para pagar aos médicos; lembravam-se da última herdade, o Outeiro do Miolo de Pão, e de como a mãe morreu depois de assinar a escritura; lembravam-se do pai velho, velho, e do seu enterro; lembravam-se do seu enterro; lembravam-se do Faustino sozinho, na gabardina, sob a boina, atrás dos óculos, sujo, sozinho. Ali, encostado à luz branca dos azulejos, molhava o pão no pingo do toucinho frito. Nos primeiros dias do mês, chegava a reforma; o taberneiro recebia-a e, à conta disso, dava-lhe, por dia, um maço de cigarros sem filtro, bagaço, almoço e jantar. Era uma caridade. Molhava pão no pingo e raspava-o nos dentes da frente. Nua, a cabeça mostrava peladas e furúnculos. Em gestos descontrolados, terminou o jantar. Tapou furúnculos e peladas com a boina. O taberneiro substituiu-lhe o prato de esmalte por um copo de vinho, meio de bagaço. Bebeu de um gole. à sua volta, numa neblina informe, a voz dos homens enchia a taberna. Faustino compreendia das conversas dos homens o mesmo que estes compreendiam das suas.Tirou fósforos do bolso interior da gabardina. Acendeu um cigarro. Só, dentro de si, iniciou um murmúio, como o ruído de uma maquineta incansável. As palavras, mal articuladas, eram sopradas num jacto recto, A ilustre família Peixoto constitui, por seus primores de sociabilidade e por suas virtudes cristãs, modelo de nobreza na vila, pois é, pois é… Na sabedoria de lições e lições decoradas, continuou entre urgentes risinhos nasais, Esta família deriva da dos Porto-Carreiros, pois D. Egas Henriques de Porto-Carreiro, que esteve na conquista de Sevilha, teve vários filhos e entre eles um chamado Gomes Viegas de Porto-Carreiro… Parou então para cuspir umas tirinhas de tabaco e olhar, alarmado, em volta. Prosseguiu, Este nobre teve a alcunha de Peixoto, por levar uma truta do mar ao conde de Bolonha, a qual um corvo marítimo deixara cair no castelo de Celorico da Beira, quando este estava sitiado por aquele príncipe, pois é, pois é… Esfregou os olhos, afastou a boina, coçou furúnculos. Olhou o taberneiro num pedido mudo de bagaço. Acendeu um cigarro com a beata do anterior. Sem que ninguém o escutasse, disse, Gomes Viegas foi embaixador de D. Sancho II em França e mereceu grande valimento de D. Afonso III, que lhe deu a honra de Pardelhas, junto a Guimarães, e outras terras, pois é, pois é… Em fungos convulsivos, nervosos, amedrontados, disse de uma só vez, como que cuspido, As armas antigas dos Peixotos eram duas faxas onduladas de azul, cada uma com uma truta de água doce. Modernamente, disse ainda, usam armas xadrezadas de ouro e vermelho, de cinco peças em faxa e seis em pala, pois é, pois é… Encostados ao balcão, os homens bebericavam vinho com a ponta dos lábios. As peles, queimadas até ao início da testa, e os olhos, fechados por canículas cíclicas, não repararam nos movimentos arrastados que levantaram Faustino e o lançaram no sopro da noite. Tanto leu que tresleu, diziam as mulheres, sentadas nos poiais ou banquinhos de madeira. A ilustre Família Peixoto constitui, por primores de sociabilidade e por suas virtudes cristãs, modelo de nobreza na vila, repetia Faustino, na gabardina, sob a boina, atrás dos óculos, respirando cigarros, sozinho, afogado em correntes, remoínhos de trigo.

josé luís peixoto

navegação de lisboa ao arquipélago de cabo verde e vice-versa

Numa traineira de carapaus vivos a dobrarem-se no chão e metros de sedas garridas das Indias, deixei Cabo Verde. A cada onda, a cada tempestade, o oceano tornava-se mais intransponível, mas num dia de sol e de esperança, vesti o fato branco, a gravata, enfiei os dois anéis no dedo, o cravo de papel na lapela, e cheguei a Lisboa. Instalei-me. Perdi-me em autocarros e vagões de metropolitano, e inscrevi-me na universidade. Quando a bolsa chegava, comia uma sopa, pagava a renda e ouvia o ralhar do estalajadeiro e ouvia o ralhar do estômago, e fazia a minha vida. Sem perder um ano, tirei o curso de história. Durante quatro anos, devorei crónicas marítimas e trágico-marítimas, devorei cartas de marear e diários de bordo. No ano da nossa salvação de mil quatrocentos e cinquenta e cinco, no quinto dia de Fevereiro, vamos descendo os mares selvagens que, por via das costas virgens de África, nos levam para lá do Cabo Bojador. Os mares, o oceano selvagem que, à noite, sabemos ter cruzado, mas que não imaginamos ainda qual cruzaremos amanhã. Hoje, na mesma pensão onde aportei há seis anos atrás, saio para o trabalho. Cruzo-me com o senhor Henrique da recepção, digo-lhe bom dia e recordo-o de opa negra, de chapéu negro, quando à seis anos me perguntava em gritos de surdo: percebes português? Falas português? O senhor Henrique que virava e revirava as notas que lhe dava, que as submetia à luz. Quanto mais descemos a costa, mais negros e mais admirados são os que nos esperam na praia. Se perdem o medo, chegam-se a nós e esfregam-nos as mãos e os braços com cuspo. Ao perceberem que não é de tinta a nossa cor, afastam-se de nós a correr e juntam-se uns aos outros em grupos e falam a linguagem de pássaros assustados. Ando adoentado. Ontem, com as costas da mão, senti um braseiro que ardia na minha testa. Dirijo-me para a rua e sei que cambaleio. As pernas vão de lado. As imagens tremem-me no olhar. Começava o sol a levantar-se do ventre das marés, e já lançávamos à água o corpo sem vida de um grumete apanhado pela enfermidade. A meio da manhã notámos sinais de semelhante padecimento no dispenseiro e no contramestre. Até aqui, os mantimentos têm resistido nas medidas ordinárias; com excepção do azeite, reduzido a meia canada; da carne de porco, reduzida a três quartos de arrátel; e da purga dos enfermos, reduzida a meia botica. Anteontem, rapei a última réstia do frasco do unguento que minha mãe me enviou em Junho. Esfrega-se no peito, na raiz do pescoço, e perde-se a fome, o mal dos figados e o cansado da cabeça. Ontem, custou-me adormecer. Jantei um café com leite e bebi litros de água. A boca sempre seca, a língua de esponja musculada, os dentes espetados em bocados de cortiça. Depois, há este frio que não aguento, que entra pelas frestas dos sapatos, que atravessa a resistência da fazenda, este frio a que nunca me irei habituar. Nesta altura do ano, o sol nasce cedo, mas nasce frio. Parecido, mas tão diferente do sol de Cabo Verde. O céu cresceu limpo de nuvens, durante todo o dia. O sol ardeu como nunca haviamos visto nestes meses de Inverno. Espero minutos na paragem de autocarros. Entro. Mostro o passe e, de pé, custa-me aguentar o corpo na demora do trânsito. À falta de qualquer vento que bulisse, navegámos a pouco mais de três nós. Chego ao trabalho e troco de roupa na barraca. Escalo os taipais e, na betoneira do telhado, seguro dois baldes de massa. À minha frente, o patrão zangado. E ele, que nunca me disse nada, a dizer: ò rapaz, isto é que são horas? Nas praias, ao descermos para establecer contactos e enterrar padrões, os que nos olham e que descobrimos, primeiro, espreitam-nos atrás da vegetação que chega quase à praia; depois, quando finalmente se aproximam, fogem se acaso lhes falamos. Responde, rapaz. Achas que isto é que são horas? Admiram-se com as nossas roupas, passam os dedos no nosso cabelo, e escondem o olhar se lhes fazemos perguntas. O patrão, que nunca me disse nada, diz-me palavras estrangeiras, um falar arrastado e grosso, de disco nas rotações erradas. Se perdem o medo, nús e embrutecidos, costa abaixo cada vez mais negra a sua pele, ficam de boca aberta a ouvir-nos. Não nos respondem. Uma vez ou outra, trocam palavras de bicho e ais como se não nos vissem ou não estivéssemos diante deles. O patrão e os companheiros lá de Cabo Verde, lá de Angola, lá da Guiné, a olharem-me todos. E a voz distorcida, prolongada, e o patrão a apontar-me a rua, a cidade. Caíndo, desço os taipais. Não troco de roupa, agarro no saco e espero o autocarro. Sentados no lugar das grávidas, dos deficientes e dos velhos, as pessoas olham-me de lado e comentam. Os selvagens, homens e mulheres, aparecem-nos sem qualquer vestimenta que lhes cubra o pudor. Alguns vêm sujos de lamas e tintas a desenharem-lhes riscos na pele. Olham-me para a camisola, as calças, as botas sujas de cimento. Alguns trazem pingentes nas orelhas, no nariz ou nas partes. Não perdi um ano. Durante quatro anos, devorei crónicas marítimas e trágico-marítimas, devorei cartas de marear e diários de bordo. Os negros são, por regra, preguiçosos. As suas habitações parecem-se com as dos animais menores, os alimentos que nos oferecem são preparados sem instrumentos, o seu meio é tosco e primitivo. Na calçada, os contornos são indefinidos, tropeço em cada passo que dou. Na recepção, o senhor Henrique no astrolábio do seu olhar, mira-me admirado. Entro no quarto. Deito-me. Sob o peso dos cobertores, tremo de frio. Custa-me adormecer.

josé luís peixoto

a olaia

É uma árvore que eu vejo daqui, da janela do quarto. A avó costumava vê-la, sentada na varanda. Ao fim da tarde, é uma árvore melancólica, segura à terra e ao tempo: anos como folhas a nascerem viçosas e a misturarem-se mortas na terra. É uma olaia no centro do jardim. Abraço o seu tronco muito forte, sinto o seu corpo de madeira de encontro ao meu, ao vê-la daqui, da janela do quarto.

Hoje choveu e os pássaros só agora se distinguem. A serra, grandiosa, sussurra a sua voz de trovão às raizes da olaia. O céu passa, como tempo, como folhas tristes. Hoje é Domingo. Hoje não choveu e chegaram agora da missa. Diante da olaia, pousam as quatro irmãs para uma fotografia. Os homens sorriem. As quatro irmãs, tão novas, riem. A olaia estende os seus ramos caprichosos no vento para tocar a alegria nos cabelos das irmãs. Hoje não choveu. Hoje é Verão e férias. A avó acabou de se sentar na varanda. E a olaia tem mais ramos. Chegaram os netos. Não corram dentro de casa. Os netos correm na cozinha e no corredor e nos quartos todos. Os homens sorriem. As quatro irmãs dizem não corram dentro de casa, e conversam, e riem. Um raio de sol ilumina as quatro irmãs, sobre uma cómoda, diante da olaia, numa fotografia. Hoje choveu. Vejo a olaia daqui, da janela do quarto. A avó costumava vê-la, sentada na varanda.

Sob a olaia está um banco de jardim, vazio de todas as pessoas que nele se sentaram, molhado, hoje choveu; um banco de jardim, muito velho, fechado no mundo que passou e a sentir a morte na memória. Entre as ervas, levantam-se rosas, rosas entre o verde, levantam-se rosas a dizer ainda cores vivas na tarde. A olaia espera. Ouço vozes vindas das fotografias e das paredes e de dentro das gavetas e de dentro dos baús, vozes enroladas em lençóis de linho, entre rendas antigas de avós de muitas avós da avó. Ouço a avó, sentada na varanda, e a luz nítida, calma do fim de tarde. Não corram dentro de casa. Os netos brincam na varanda. Choram às vezes, mas não choram a sério, fazem birras de criança e limpam as lágrimas no colo da avó. Ouço vozes na sala de jantar, ouço o serviço fino de porcelana na prateleira, ouço os pratos e os talheres. Conversam os homens. Conversam as irmãs. Os meninos jantam na sala. Sobre a copa da olaia, a noite cai como um sorriso. Ao centro da mesa, levantam-se rosas contentes e mais altivas. Na cozinha, no forno, a lenha arde serena em brasas mornas. Sei que hoje choveu. Da janela do quarto, vejo a serra misturar-se lentamente com a noite. Vejo a olaia, imóvel, a esperar sempre. Vejo um banco de jardim, vazio, a guardar um lugar na sua solidão.

É uma árvore que vejo daqui. As suas raízes, longas, entranhadas e a rasgar o peito maciço da terra, são olhares que foram luz, num dia importante; são mãos que acariciaram outras mãos, sinceras num silêncio para nunca mais esquecer; são sangue. O seu tronco é esta casa e esta serra a ver nascer tantas vidas; o seu tronco, forte, são vozes a falar dentro de vozes. Os seus ramos são muitos silêncios espalhados, diferentes e espalhados pelo vento, num mundo onde hoje choveu. Passam nuvens no céu da noite, como tempo, como folhas tristes. É uma árvore que vejo daqui, da janela do quarto. A avó costumava vê-la, sentada na varanda.

josé luís peixoto in caderno 6
fotografia: dias com árvores