Teia

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habitação social

MORO NUMA     CASA DE C     ARTÃO MOR     O NUMA CA     SA DE PLA
TEX NÃO T     ENHO ÁGUA     MAS TENHO     SABÃO NÃO     TENHO LUZ
MAS TENHO     LAMPIÃO M     ORO NUMA      CASA DE L     ATÃO MORO

NUMA CASA     DE PLATEX     NÃO TENHO     RETRETE N     EM  TENHO
KLEENEX N     ÃO  TENHO     CARPETE N     EM TENHO      KARPEX MO
RO NUMA C     ASA DE CA     RTÃO MORO     NUMA CASA     DE PLATEX

NÃO GOSTO     DA ESCOLA     SÓ GOSTO      DE COLA O     PAI  QUER
A PINGA E     EU A SERI     NGA MORO      NUMA CASA     DE  LATÃO
MORO NUMA     CASA DE P     LATEX NÃO     TENHO TRA     BALHO MAS

TENHO CAR     ALHO  NÃO     ANDO NU E     TENHO BOM     CU MORO N
UMA  CASA     DE CARTÃO     MORO NUMA     CASA DE P     LATEX TEN
HO CONA E     TENHO DUR     EX COMIGO     É  SEGURO     E RAPIDEX

MORO NUMA     CASA DE L     ATÃO MORO     NUMA CASA     DE PLATEX
MAS  ISTO     VAI MUDAR

ritmos

chama -me diz -me toca
-me beija -me fala -me
conta -me canta -me dança
-me toma -me sente -me
leva -me -me deseja
-me abraça -me olha -me
aperta -me lambe -me mata
-me ama -me ouve -me
espera -me telefona -me escreve
-me deixa -me bate -me
mata -me deixa -me deixa
-me esquece -me lembra -me
chama -me diz -me toca
-me beija -me fala -me
conta -me canta -me dança
-me abraça -me olha -me
aperta -me lambe -me mata
-me ama -me ouve -me
espera -me telefona -me escreve
-me deixa -me bate -me
mata -me deixa -me deixa
-me esquece -me lembra -me

o dia em que o eu me deixou

 

foi um dia que não me é fácil recordar. em especial por causa do comportamento inesperado do eu nessa tarde terrível. já há alguns anos que não nos dávamos bem. andávamos sempre magoados um com o outro. mas nesse dia foi demais. o eu disse-me que já estava farto de todas as frases em que o colocava. quando pensava, quando escrevia, quando falava. obrigava-o a fazer o que ele não queria fazer de modo algum. por exemplo, projectar-se num ponto de vista que não era o dele. viver uma dor ou uma alegria que não eram as suas. isso, atirou-me ele à cara, dava à sua existência uma intensidade difícil de suportar. disse-lhe que não percebia o que é que ele queria dizer com isso. e ele continuou, exaltado: como é que é possível viver com a consciência de que sou uma forma a tentar comunicar? não me deixas tranquilo a teu lado. dizes que posso contar contigo, mas nunca sei como nem quando. abandonas-me ao fluxo contínuo da tua imaginação. transformas-me constantemente os desejos. eu queria uma vida mais sólida, com predicados definidos. um ponto de onde te avistasse sempre do mesmo ângulo. já não aguento mais viver contigo . esta foi a última frase que lhe ouvi antes de sair porta fora. não sabia o que pensar ou o que sentir nesse momento. ainda não sei. e é a primeira vez que falo disto sem chorar desde que o eu me deixou.

Manuel Portela

a mina anti-pessoal como arma humanitária

MOTE

em metade do planeta
cem milhões foram plantadas
a papoila é violeta

GLOSA

entre 3 e 15 dólares
é o preço de mercado.
nas indústrias de defesa
cada dano é bem estudado:
a montante e a jusante,
calculam bem as hipóteses:
o que não for em detonante
há-de exportar-se em próteses.
a procura é satisfeita
em metade do planeta.
são 350 os modelos disponíveis
mas também se classificam,
p’los ferimentos possíveis,
em quatro padrões distintos:
pé e/ou perna amputada
em forma de couve-flor;
coxa, genitais, ou nádega
estilhaçados com fulgor;
dedos, mão, peito e cara
levados p’la brincadeira
ou carcaças fragmentadas
numa explosão à maneira.
cem milhões foram plantadas.
sem um dedo, sem dois dedos,
cego, surdo ou queimado
sem uma perna, sem duas,
ou de todo estropiado,
incentiva a cirurgia
do mundo civilizado
mesmo sem anestesia.
ou condições sanitárias
para acções humanitárias.
minam-se campos agrícolas,
minam-se estradas e bicas,
caminhos e cemitérios,
a pé, por meios aéreos,
semeiam-se a baixo custo
na floresta e na valeta:
terra, pedra ou arbusto,
a papoila é violeta.

manuel portela

imagem the halo trust