sobressaíam-lhe os cornos no rebanho (4)

dom pedro depois de matar os assassinos de inês encerrou-se com ela durante vários dias.

a necrofagia nesse tempo ainda era permitida

Mário da Costa

Fotografia Maria Ametista

é-ode-não-é

um cigarro aceso é só um cigarro aceso.
qualquer coisa que não-é-podendo-ser é só qualquer coisa que não é,
mais nada.
mas não-é podem ser muitas coisas.
e muitas coisas já é, mas pode ser nada,
se não-for
(qualquer-coisa-que-não-é).

Vítor Manuel de Melo

photo Pachakutik

estória sem nota

era sexta feira
(a “santa”) quan
do manuel sebast
ião morreu comu
ma mina debaixo
dos pés e ferna
ndo pimenta foi
esborrachado por
um camião e ant
ónio rebelo foi

assassinado  e um manifestante foi feito em pasta pela
polícia de choque  e sílvia foi violada e estrangulada
e miguel benavides se suicidou  e firmino soares foi c
apado  e maria josé convertida à prostituição e uma ga
ivota enforcada e um anarquista abatido a tiro pela se

ntinela do quart
el onde escrevia
abaixo o militar
ismo e um homoss
exual deixado nú
e apunhalado por
não ter pago all
en spinafre sent
enciado e um gue
rrilheiro de lib
ertação executad
o  oshi tokamoko
transformado  em
kamikaze e lucia
no bento anavalh
ado virgem num b
airro de putas e
alfredo dos sant
os mutilado e ru
i segismundo mor
to à fome e milh
ares de cidadãos
envenenados  com
peixe  estragado

a nenhum deles                 chamaram cristo


sobressaíam-lhe os cornos no rebanho (3)

uma multidão desenfreada de hippies aplaudia e pediu bis.

mas jesus não voltou a actuar.

circula o boato de que o empresário não lhe renovou o contrato.

Mário da Costa

rua camus

exercício incoerente depois do mito de sísifo

rua camus começa e acaba em muitos lados. pode começar e acabar em muitos lados. pode começar por exemplo em carnaxide e acabar em coimbra. rua camus é muito comprida, e muito escura. e é enorme: é longa, escura, sinistra e tenebrosa. uma rua absolutamente inédita, e absurda. sem dúvida. sim: pode começar e acabar em muitos lados – antes de mais, começa num século: vinte. depois de cristo? está bem: depois de cristo. começa no ano de mil novecentos e setenta e sete, e termina dois anos depois, em mil novecentos e setenta e nove (porque quando eu me suicidar as contas já não (me) interessam). isto é um exemplo: você podia começar pela rua camus no ano que você quisesse. eu quis que a rua camus começasse no ano de mil novecentos e setenta e sete. e é exactamente em carnaxide que começa, e é exactamente em coimbra que termina. que silêncio aterrador… there’s no light along the road. nas margens, há cabeças humanas ao pendurão, acariciadas por grossas cordas. corpos humanos flutuam nesse espaço da rua camus – visto daqui, um enorme e exótico aquário. também aqui dentro, montes de frascos de barbitúricos e outras drogas, completamente vazios. j.j. é só uma boca aberta, e o grito rouco, abafado. j. m. é um pénis grotesco. e os cabelos fulvos de b. j.? brancos, brancos: uma brancura d’anjo-inevitável. impressionante. j. h. confunde-se. os teus dedos, jimi? é tudo muito negro, realmente, deste lado do absurdo. decifrem janis joplin e jim morrison, brian jones e jimi hendrix, e descobrirão rua camus. ora penetrem. ora TENTEM PENETRAR. é díficil sacar da visão? não: verão… há mais, mas estou cansado, e vou dormir. ao fundo, ainda de pijama, cigarro apagado entre os dedos da mão direita, o “famoso” psiquiatra de carnaxide ainda balbucia qualquer coisa que não consigo entender. rua camus, asilo de suicidas, uns arrependidos, outros não. augusto gaspar de lima está irreconhecível. rua camus desemboca em coimbra, doutor! – março, setenta e nove. rua camus termina aqui.

Fernando Pereira

há dias em que caio maravilhado

Hugo Colares Pinto graficeshá dias em que caio maravilhado
dos vigésimos andares e páro
flutuante nos quartos ou nos
quintos.

há outros em que custosamente
me venho esborrachado no rés-do-chão.

domingues pinto


concerto grosso

CONCERTO GROSSO (1) POUR DE-COR-ELLI (2) (ELLI-HI- ELLI-HI! AH! UP-LÁ-HÔ)

saí de casa com uma grande pedra na cabeça. era manhã. ando muito fora de mim, e mim chateia-se, porque todos os dias perco qualquer coisa dentro de mim. hoje, logo no primeiro tropeção, perdi a batuta. melhor: roubaram-ma. e eu sei quem foi: foi o fernandelli. mas não m’importo. somos muito amigos, gosto muito dele, e não m’iria chatear com ele. caguei na batuta. ele topou, mas não s’importou. mas às tantas, a guida tirou-lha. tudo bem: fui com a pedra e com o peso da pedra e com a guida/batata/de batuta e estampei-me contra uma mercearia. primeira frustração. guida despediu-se e devolveu a batuta a fernandelli. senti-me profundamente angustiado, e voltei para casa. aqui, numa arremetida mesclada de histeria e desespero, decidi colar um cartaz na parede da sala de estar, com isto escrito: “preciso de amor para viver como o peixe precisa de água para fazer o mesmo. fernando pereira”. minha mãe engasgou-se, soluçou, desatinou, esmurrou e rasgou. rasgou a ideia de pôr o cartaz: “ó doido, vai trabalhar” – disse-me. segunda frustração. saí depois d’almoço com mais pedras na cabeça. na paragem do autocarro topei um puto com trabalhos manuais na mão direita, em pleno asfalto, debaixo de chuva impiedosa, eufórico, a rir-se doida e lindamente. talvez fosse eu a dançar o “lago dos cisnes”. isto pensei eu – mas não k’ideia: era o outro, o petiz. feliz. perguntei-me então, melancólico: “porque não sou eu aquele, e agora, com aquela idade, VIVO?”. mas logo a seguir reparei que vestia um casaco preto, e interroguei-me: “sou recepcionista numa residencial, não é?”. “pois é” – respondi-me logo a seguir, angustiado. terceira frustração. saí do autocarro com os óculos sujos e as pedras na cabeça a confundirem-me. deparei com uma mulher que procurava há dias. “estou cheio de sorte” – pensei. hesitei. hesitei a princípio, mas depois caminhei decidido: “HÓ-HÓ!… OLÍVIA “DE HAVILLAND!” please to meet you (hope you guess my shit)! estás ocupada? não?! vem daí!” – finalmente resoluto (seria fernandelli?). decidimos ir para a cave do angola, café. pelo caminho, numa sucessão louca, larguei e recuperei dezenas de vezes as minhas pernas, que estariam, mui provavelmente, a pensar em ir para outro sítio. venci-as, claro. graças a não sei quem, sou dotado de uma força de vontade extraordinária (sei que estou a mentir). à entrada do café fui atropelado por um amigo da minha irmã (mea culpa): “estás p-p-porreiro?” olívia desceu prá cave, pressurosa. eu ia atrás dela, e ia sentindo a estranha sensação de levar às costas o amigo da minha irmã, claro que o ludovico tinha ficado lá fora, mas vocês sabem como é: sou muito paranóico. pois. depois: extro-vertida-olívia-verteu-poesia-do-parque intro-vertido-fernando-verteu-agonia-in-the-dark(ness) e momento quarta frustração. a angústia redobra de intensidade. meto-me noutro autocarro, e volto pra casa. estendo-me na cama. quero ouvir música. ligo a telefonia, mas adormeço. quando acordo, digo: quinta frustração.

não: nada de batutas de batotas. nem nada de batatas: a anorexia é demasiado evidente. só me pergunto, como é que eu, com tantas frustrações, TODOS OS DIAS, vou conseguir deixar de andar, TODOS OS DIAS, com tantas pedras na cabeça. tam.

FINALE MAJESPASTOSO


(1) GROSSO: nos finais do século XX depois de cristo, a população, quando topava um bêbado, dizia: “ena: está grosso”.

(2) DECOR ou também de cor (e salteando): quer dizer que o concerto pode servir de decoração a utilizar nos quartos dos bêbados liberatúricos anti-académicos (e não só).

CORELLI: compositor grosso – perdão: italiano. escrevia bonitos concertos grossos. fernandelli disse.

sobressaíam-lhe os cornos no rebanho (2)

o alto dignatário norte-americano foi visto a roubar flores num jardim da baixa

o jardineiro teve que pagar uma indemnização à américa

Mário da Costa

sábado:

festa, belide, teresa, lena, paula, paulas. festa, tarde, belide, condeixa, boleia, táxi, merda, doces, snooker, parvos, parvas, primo antónio, primo vasco, cerveja, bebé, depressão, recalcamento, bebedeira, misantropia, isolamento, distanciação, dúvida, paranóia. carro, boleia, outra paula, faia-bar, táxi, praça, nada, adeus, olivais, conchada, sufoco, xau, salto, cambaleio, mijo, discuto, desço, subo, entro, falo, cuspo, desabafo, califa, miguel, caldo verde, táxi, casas, fim, mais não, por favor.

Fernando Pereira

sobressaíam-lhe os cornos no rebanho (1)

consta que o fernando da ínclita geração alcunhado o infante santo ficou preso em Fez por tráfico de haxixe.

(crê-se que foi denúncia)

Mário da Costa

fotografia de Khmanglo

 

 

(des)encontro na cantina

somos dois habitantes do mesmo planeta
almoçando à mesma mesa
sem nos conhecermos
entreolhamo-nos
não temos coragem de pronunciar palavra
entreolhamo-nos
ela cora
somos dois habitantes do mesmo planeta
almoçando á mesma mesa
sem nos conhecermos
entreolhamo-nos
há um breve ping-pong de simpatia
um
dois pacotes de açúcar ela deita no iogurte
entreolhamo-nos
eu talvez sorria
ela cora
limpa o sorriso ao guardanapo de papel
entre nós
apenas dois tabuleiros de latão
com dois pratos vazios
somos dois habitantes do mesmo planeta
almoçámos à mesma mesa
sem nos conhecermos
entreolhamo-nos
entre os dois tabuleiros de latão
uma estúpida barreira de silêncio
um muro de vergonha feito de bitoques engolidos
somos dois habitantes do mesmo planeta
almoçámos à mesma mesa
não nos conhecemos
poder-lhe-ia dizer que a amo
mentir-lhe-ia
poder-lhe-ia dizer que a odeio
mentir-lhe-ia
entreolhamo-nos
ela cora
fosse o que fosse que dissesse
mentir-lhe-ia
somos dois habitantes do mesmo planeta
almoçámos à mesma mesa
não nos conhecemos
o silêncio
é a única mentira que se não diz.

jorge casimiro

fotografia de olivier jeannin, Les chaises de la cantine

comboio da noite

a estação fica além.
na estação embarcam pessoas
e passam comboios iluminados.
na estação iluminada
no sono da noite
parto sem destino ao destinado.
dos adeuses fiquei com um
– o meu sem destino,
que parte agora á meia-noite
num comboio que veio e parte
sempre que o chefe apita.
ainda um dia embarco nele.
passo pela bilheteira (onde está o alfredo),
e peço um bilhete, só de ida,
para o adeus que em mim parte
sem destino.
(já sei que o alfredo me dirá:
– adeus! boa viagem!)

vítor manuel de melo