Violações de Sonhos coisas sem nome

Guiado pelas paisagens da história
Retrospectivo os enredos da existência
Mas junto aos monumentos, não sei porquê?
Nem sempre o deslumbre é sem dor
Como se algumas sumptuosidades tivessem inerente as feridas
Ficavam-me dos factos, gestos por vezes anónimos
Reboliço de Mães a fugir à frente das lanças – escudos de crianças
Violações de sonhos, coisas sem nome
E um pó no ar do fim da batalha – a encobrir o veludo do manto
Sempre o mesmo manto
Que depois de sacudido se acariciava se acaricia…

Ilustração Hugo C. Pinto

Risco

O risco. Falhar. Ter medo de falhar. Falhar por ter medo de falhar.  Portanto o risco de falhar, a representação.

A vida como uma representação. O risco de falhar na representação da vida. Não ter medo desse risco. Hesitar. A alegria por mudar de personagem. Ainda o risco de falhar mas a alegria. A euforia. A euforia pela alegria ao mudar de personagem. Depois o medo, o medo a desaparecer. Partir.

Uma nova personagem a partir a desaparecer. Ficar a ver partir. A antiga personagem a fugir para cá da nova personagem. Escolher entre a antiga personagem que desaparece e a nova que parte. Decidir ter medo de decidir, hesitar.

Afinal não era para escolher. A escolha feita e imposta. Suportar a imposição do fim. A imagem dura muito tempo. A imagem dura muito tempo e entretanto a pessoa as personagens apanham o comboio. As personagens afastando-se na pessoa dentro do comboio. Beber.

Beber é mudar de personagem. A pessoa não acreditava nesse personagem acreditava na naturalidade. A pessoa teria encontrado a sua nova personagem, de dentro para fora ou de fora para dentro? E com que naturalidade? O que é a naturalidade, onde se separa a naturalidade da influência? Continuar a ler

pessoas informadas. investidores.

está bem. dou de barato que se calhar não vale a pena. eu sei, conheço, vejo muito do que se faz por aí. vou a todas, pesquiso, estudo, recolho, colecciono, anoto, cerro os dentes, esfrego os olhos, aprendo. eu sei que por aí se faz bem melhor do que eu. até por aqui no facebook vejo muito e muito bom trabalho. está bem. dou de barato que se calhar não percebo nada disto. e continuo a tentar perceber e continuo a tentar ver e aprender e lá vou a todas. entrar em todas as galerias ali da Miguel Bombarda nas inaugurações e depois ir ver devagar. com tempo. ver como se faz. aprender. engolir. uma tarde, uma galeria às moscas. a senhora (a dona, responsável. “estou nisto há muitos anos”. já vi muitos começar e acabar) acende as luzes para que eu possa ver melhor e enxota o sono com o esteja à vontade da ordem. espreito. olho. vejo tudo com cuidado. tento reconhecer o conceito, avaliar a técnica, sentir. sem pressa. e depois coragem.  falar.  sabe eu tenho aqui uns trabalhos.  sabe pode ver-se na net.  sabe as pessoas gostam. mas eu. não com a sua idade. ainda se fosse um novo artista emergente sabe já vi muitos começar e acabar os nossos clientes  sabem o que querem. são pessoas informadas. investidores. não compram arte para a sala. isto é uma casa importante. mas. não tem sequer curiosidade. não quer ficar com o nome do blog para um dia se. tiver. tempo. e. mas só de olhar para mim. e. pois um dia vou perceber como fazem estes senhores curadores, galeristas, marchands, críticos, compradores, investidores, coleccionadores, conhecedores, criadores. um dia vou perceber. um dia vou querer perceber. e nesse dia a diarreia vai ser tão grande que vai ser preciso uma semana para limpar o ccb.

O b t u s â n g u l o

I

Obtusângulo desceu rapidamente as escadas e saíu para a rua aos berros. Apesar do seu estado, dirigiu-se com exactidão ao centro de um tampo de esgoto que, no meio da estrada, podia ainda reconhecer-se por se situar defronte do edifício das artes extemporâneas. Obtusângulo gritava e esbracejava como um louco. «Grito e esbracejo como um louco!», dizia em harmonia com a narrativa, «Não importa porquê, não é? Basta-vos saber que estou louco!!! Mas se o não admitisse seria mais fácil, hã??? A vossa curiosidade abjecta não se satisfará impune, corja, paguem-me, paguem-me com esse olhar incrédulo!»

II

Era uma bela ansiedade, secundada por uma coreografia igualmente bela. Ao longe, sem som, tratar-se-ia de um bailarino perfeitamente soviético, figurando a dança da libertação. Sem dúvida…

Foi de repente que Obtusângulo se calou. Os braços continuavam, descoordenados e bruscos, o percurso que o estarem colados ao corpo lhes permitia. Por instantes, ficou a ouvir o silvo que lançavam no ar. Depois, acordando daquele torpor traiçoeiro, rodou sobre si mesmo, expirando em pequenos gemidos o esforço que ignorava fazer, e acabou por levantar vôo, para tão longe que nunca mais alguém o viu.

Vi Obtusângulo, pela última vez, debaixo do painel solar a alisar as penas. Fui ter com ele, mais furioso que espantado, mas o barulho que fiz ao afastar as telhas foi o suficiente para o afugentar. Aproveitei para ajustar a antena. Creio que não ia para longe, já que não levava gravata. Longe é relativo mas, apesar disso, ou por causa disso, não ia decerto para lá. Este facto, do qual me convenço mais e mais à cadência das ocorrências, ocultei-o, porém, a alguém que lhe era muito íntimo – muito íntima, para atalhar o enredo. Gipsofila mudou de côr quando lhe garanti que seguira para longe. «Para o sul, já que estamos no outono», disse-lhe eu. Amareleceu, o que, confesso, fez-me crescer o prazer que sentia por sabê-la a sofrer. Há pessoas que nos causam mais repulsa do que é normal, assim como as há que, para além disso, nos provocam um nó no estômago que se prolonga para baixo, até onde vocês sabem. Gipsofila não era uma delas, o que só aumentou a minha raiva, e a espuma começou a jorrar-me da boca. Depois disto, nunca mais soube de Obtusângulo. Mas isto foi ontem, para quem se interessa pelos pormenores…

III

Continuar a ler

querer mais do que não

“estás dentro de mim…”

é o que eu por vezes digo, em tom de blasfémia, ao meu amigo quando ele fala mais baixo e não me toma de assalto com sua calma misteriosa, indelével, profundamente (in)definido.

às vezes sinto vazio, fecho os olhos, sou vazio. nessas o meu amigo cabe, meritório de confidências. não sei que função te foi atribuída, amigo, que estarás mais inteirado dela do que eu, que veja pelas costas o abismo acabado de transpor pelo salto breve e irreflectido duma criança que persegue borboletas? não queres a vertigem, a agonia, a dissonância das trevas que te chamam das entranhas de mim, pois não? é que privar com amigos intrínsecos, vacantes na vigília, espelhos nocturnos que me dividem entre a sinceridade da tua existência, num desígnio monumental do universo do qual és uma função disfarçada sob a pele dum homem, e a alma do universo, és pó das estrelas. como podes tu ter tão elevados anelos?

ah bem-aventurado amigo, nunca serás desiludido.

já-mias. perdão: jamais, assim, à francesa:

“tu vivras dans mon oeil comme une paillette dans un rayon de soleil…”

vou pôr-me a contar palinhas ao tempo.

introdução ao estudo do caminho

vais e ides como te apetece

hugo c pinto

degrau a degrau subimos, ou desces, e vamos, não indo complicar
é vicio.  trate-mo-nos

a desifestação do ar é mais
fácil que os opiáceos, que o vinho

que a própria vida,

(em partes)
é só a doar e doer,  e

Diário de Bordo

O viajante aventura-se pelo labirinto
mesmo que apenas se recorde quando nem por onde entrou.
Supõe que o caminho há-de ser um labirinto,
porque adivinha no novo reflexos do passado.
Mas não são reflexos amáveis, são rebentos do medo
que lhe revelam que cai, que se derruba até ao centro.
Mas há um centro, por acaso?
Não cai para os bordos?
Pensa então que precisa de um esconderijo
e por momento oculta-se nos cantos. Mas o medo
corre a refugiar-se nos mesmos esconderijos.
Pensa então que talvez se extravie à deriva
e que necessita de um fio que o guie no labirinto.
Mas onde amarrar o fio?
Pensa então que nem a recordação o poderá  aguentar
e, cada entardecer, escreve um diário de bordo.
Este é o diário de bordo à deriva, o viajante
escreve como um timoneiro num mar sem uma brisa,
adivinha que se aproxima a tormenta do naufrágio.
Escreve com desespero:
não como o profeta, mas como louco;
não para os Deuses: para as marionetas;
como a marioneta para as marionetas escreve.
E o viajante sabe às vezes, mas às vezes nada sabe:
quem é, quem és.
Pensa às vezes que transita pela Europa
como uma mosca no corpo nu de uma mulher.
Outras vezes fica contemplando as páginas em branco do
diário de bordo,
sem pensar em nada, ou desenhando espirais.

Joseba Sarrionandia Uribelarrea, Sarri, (mal)vertido a partir de uma versão em castelhano
Imagem de Hugo C. Pinto

um rascunho nunca começa por um lado, apetece sempre tirar-lhe o tempo

nunca te dei uma carta, mas tentei, um rascunho. ainda não sabíamos todas as consoantes e ditongos dependentes. tentei com os olhos, respondeste com os lábios (anos depois decifrei que a palavra sorrir vinha daí), neste caso o rascunho recomeça pela ferrugem, pode ser?

casa pia & a colmeia, lisboa, 1964

João Damasceno, já agora

Em terra de cegos quem tem um olho é rei;
quem tem os dois é frequentemente abatido.

João Damasceno in CORPO CRU Fenda – 1983
ilustração de hugo colares pinto 2010

elogio fúnebre (vi um homem que viu outro que viu o mar)


no escuro à noite o homem das letras olhava o mar em busca das palavras da fórmula adequada do verso certo
depois o gato acendeu os faróis e tudo se lhe tornou claro…

hugo colares pinto

certas imagens


com nortada ao fim da tarde certas imagens escorrem pela curva do cachimbo… colhem-se então à rede fina junto às pedras como os camarões.

hugo colares pinto