estória sem nota

era sexta feira
(a “santa”) quan
do manuel sebast
ião morreu comu
ma mina debaixo
dos pés e ferna
ndo pimenta foi
esborrachado por
um camião e ant
ónio rebelo foi

assassinado  e um manifestante foi feito em pasta pela
polícia de choque  e sílvia foi violada e estrangulada
e miguel benavides se suicidou  e firmino soares foi c
apado  e maria josé convertida à prostituição e uma ga
ivota enforcada e um anarquista abatido a tiro pela se

ntinela do quart
el onde escrevia
abaixo o militar
ismo e um homoss
exual deixado nú
e apunhalado por
não ter pago all
en spinafre sent
enciado e um gue
rrilheiro de lib
ertação executad
o  oshi tokamoko
transformado  em
kamikaze e lucia
no bento anavalh
ado virgem num b
airro de putas e
alfredo dos sant
os mutilado e ru
i segismundo mor
to à fome e milh
ares de cidadãos
envenenados  com
peixe  estragado

a nenhum deles                 chamaram cristo


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Quando o meu homem estava vivo eu não ligava a essas coisas

Quando o meu homem estava vivo eu não ligava a essas coisas. Mas as velhas dormem pouco e o tempo é muito longo. Eu antes prefiro viver sozinha na minha casa que no asilo rodeada de outros velhos que nem sequer conheço. Não gosto muito, mas vivo. Há três ou quatro anos comprei um cão para me fazer companhia. É verdade que eu nunca gostei muito de animais, e sempre detestei os cães quando passam a língua deles pela nossa cara ou quando nos encostam o focinho húmido ao nariz. Gostava de ter um gato, mas sou alérgica aos pêlos. Fazem-me espirrar e depois não consigo parar. O cão era muito mal educado e enchia-me a casa de porcarias. Eu já estou velha e também não posso descer e subir escadas todos os dias e levá-lo a passear. A minha filha veio visitar-me e eu dei-lhe o cão. Ela também não o queria, também não gosta, mas eu sou teimosa e não desisti.

Uns tempos depois a minha filha lembrou-se de mim e deu-me uma prenda. Era uma dessas plantas africanas ou da Austrália. não sei bem, que tem umas flores muito bonitas que comem moscas e insectos. Ao princípio eu não gostei muito da ideia, aquilo metia-me nojo. Mas depois comecei a matar moscas para lhe dar de comer e a falar com ela como seu fosse para lhe abrir o apetite e a planta começou a fazer-me companhia. Eu andava contente e entretida, no verão há muitas moscas, as florzinhas não passavam fome.

Não sei porque razão as moscas desaparecem no inverno, é como se emigrassem. Eu passava dias ocupada, à caça. Quanto menos moscas havia mais tempo eu passava à procura delas, mais companhia a planta me fazia. Eu andava contente, é verdade. Os velhos são estranhos, contentam-se com certas manias.

Há coisa de umas semanas a planta começou a mirrar e as flores a fecharem-se. Primeiro pensei que fosse do frio, essas plantas dos trópicos são muito sensíveis. Pu-la ao pé do aquecedor que e deixava-o ligado noite e dia. As flores continuaram a fechar-se e a planta a morrer. Já só tinha uma flor bonita. Pensei que a planta tivesse fome por ser inverno e haver poucas moscas.

Comecei a não ter descanso. Levantava-me a meio da noite para surpreender moscas que estivessem a dormir e de manhã, antes de beber o café e de fazer as minhas torradas, continuava à procura de moscas. A flor boa era a única que comia e e tinha esperanças que a planta recuperasse.

Depois tive uma ideia e comecei a deixar migalhas de pão e colheres sujas de marmelada sobre as mesas para atrair as formigas. De manhã à noite não pensava noutra coisa e, se não fosse a minha querida planta estar a morrer, andaria feliz. Depois a última flor começou a mirrar, perdeu as pétalas, a planta já não comia e, final ente, morreu. Eu fiquei muito triste, perdi a minha única companhia, e o tempo tornou-se muito longo outra vez.

Algumas pessoas disseram-me que eu lhe dava comida demais, que a planta morreu com um uma espécie de congestão. Se assim foi a culpa foi minha mas eu não sabia, não podia imaginar que isso acontecesse.

Agora a primavera está a chegar e eu tenho o pressentimento que é a última vez que a vou viver. Já estou muito velha e sinto que o corpo só quer descansar. Desde que a minha planta morreu que eu ando cá com uma ideia mas não quero dizê-la à minha filha. Na primavera vou comprar uma tartaruga, dessas que vivem num aquário pequeno com uma palmeirinha de plástico no meio e uma ilha de pedras à volta.

Enquanto estiver bom tempo a tartaruga faz-me companhia e eu posso vê-la nadar e respirar, dou-lhe uns pedacinhos de pão e de carne e falo com ela. Depois quando o frio chegar, a tartaruga há-de hibernar e eu posso adormecer tranquila, e não acordar mais.

a. pedro correia

a evolução das espécies: a mosca

era uma estrela entre as moscas das redondezas, possuía um talento especial para voar. loops, voos picados, quedas livres, nenhuma outra mosca a batia em velocidade e acrobacias. tornara-se famosa, alvo de honrarias e de invejas, admirada e odiada graças ao seu comportamento de diva e melindres de deusa.

um dia em que se exibia perante uma multidão de moscas, ao pretender fazer uma espiral ascendente em volta de uma coisa que pendia do tecto, bateu nela de costas ao sair mal de uma pirueta.

sendo a coisa papel mata-moscas, ficou com as asas coladas ao dito, para gáudio do restante mosquedo. debateu-se com tamanha força para se libertar que lá deixou coladas as asas e caíu desamparada no chão. humilhada e desasada foi rejeitada pelas outras e tema de chacota geral.

decidiu, então, misturar-se com as formigas fingindo ser uma delas. resultou, mas a vida de formiga era demasiado trabalhosa e anónima. a mosca, habituada a luxos de estrela, entrou em depressão profunda, entristeceu e finou-se em poucos dias.

a evolução das espécies: o escorpião

sendo pouco apegado a tradições e nada dado a convenções, o escorpião, vendo-se cercado de fogo por todos os lados, não hesitou: pegou no telemóvel e chamou os bombeiros.

felizmente tinha rede e saldo suficiente. Quinze minutos depois foi salvo de uma morte quase certa. Mas era um escorpião reconhecido e agradecido. Poucos anos depois, quando morreu de morte natural, deixou a totalidade da sua fortuna à corporação de bombeiros voluntários que o salvara.

a evolução das espécies: a libelinha

a libelinha integrou-se numa excursão de milhares de libelinhas vindas do norte de áfrica para o sul de portugal.

-nem pensem que fico nessa pasmaceira. eu, chegando à europa, vou para a riviera francesa curtir o verão, exibir o corpinho e beber champanhe à beira…

não chegou a terminar a frase. foi comida por um peixe-voador.

a evolução das espécies: a carraça

a carraça descobriu que, para ter sempre sangue fresco à sua disposição, não precisava de andar sempre a saltar de cão para gato, de gato para galo, de galo para humano. bastava-lhe permanecer bem camuflada no hospital, no centro de transfusões de sangue. desde que estivesse atenta e se mantivesse ginasticada, havia sempre uma gotinha fosse onde fosse.

foi por isso que, durante muito tempo, sem ninguém saber como, doentes com diversas patologias foram morrendo com a febre da carraça.

a evolução das espécies: a cigarra

estava-se no verão, o calor apertava e a cigarra cantava.

num pequeno intervalo que fez para recompôr a voz, ouviu uma música vinda da casa ao lado. gostou tanto dela que decidiu aprendê-la para aumentar o repertório.

foi-se aproximando da fonte da música e entrou dentro da casa. o dono  também devia gostar muito da canção porque a pôs a tocar outra vez. a cigarra, que já decorara o refrão, esperou pela parte que dizia

and I love youuuuuuu

e tentou acompanhar sem desafinar

rrr r rrrr rrrrrrrrr

splash. e, enquanto um sapato se limpava a um tapete, ouviu-se uma voz:

-uma cigarra aos berros dentro de casa. não faltava mais nada.

Allentejo, até 4 de Setembro em Aljustrel

Inaugurou no passado sábado, em Aljustrel, a exposição “Allentejo”, cujo texto de apresentação é o seguinte:

Convidaram-nos a expor no Alentejo.

A nossa vontade, enquanto colectivo sedeado no Algarve ( todo o artista é o criador e a sua circunstância ), seria levar todo o AlgarveAllgarve, falando português turístico– ao Alentejo.

Mas somos o Laboratório de Actividades Criativas, de Lagos, e a exposição acontece em Aljustrel, parte de um Alentejo remoto, a braços com a desertificação, com o esquecimento e arredado das preocupações dos príncipes e estrelas urbanas da cultura.

Nós, contra a desertificação, contra a exclusão, contra a centralidade metropolitana, contra o pretenso elitismo dominante, acreditamos na contaminação e o nosso desejo seria contaminar, a partir de uma pequena semente em Aljustrel, todo o Alentejo Allentejo. Continuar a ler

a evolução das espécies: a formiga

a formiga encontrou um bife pousado num prato que estava dentro de um fogão eléctrico e, pela primeira vez na sua vida, mandou às malvas o formigueiro e sucumbiu ao egoísmo.

-nham, um bife inteirinho só para mim. tenho aqui carne para um ano sem ter que bulir nem obedecer a ordens de ninguém. vou instalar-me aqui e nem pio, é só apagar o rasto de feromonas, que nunca mais dão cá com este lindo corpinho – e foi pregando dentadinhas minúsculas no bife.

click, ouviu a formiga imediatamente antes de sentir a temperatura começar a subir. ainda tentou fugir mas ficou com uma pata presa num montinho de gordura em estado sólido. quando a gordura começou a derreter por causa do calor, fritou a formiga que esturricou de seguida.

umas mãos humanas tiraram o bife do forno, puseram-no dentro de um papo-seco e levaram-no a uma boca humana, que o comeu.

a evolução das espécies: fábulas do séc. XXI

O GATO E O CANÁRIO

o gato topou o canário e, quando se preparava para o abocanhar, o canário abriu o bico dizendo:

-gato, está ali um pombo grande e gordo, é tão pesado que mal voa, tem dez vezes mais carne do que eu. Não me comas e eu digo-te onde está.

meio segundo depois estava o canário na boca do gato.

-gatooo…, sussurrou a custo o canário.

-primeiro, não aprecio bufos, disse o gato, segundo, mais vale um pássaro na boca do que dois a voar, terceiro, não tenho frigorífico para guardar assim tanta carne sem se estragar.

foi noutro século, a memória de…

foi noutro século, a memória de gutemberg estava ainda tépida.

nós éramos quase imberbes, tínhamos um arremedo de buço, uns pêlos espetados debaixo do queixo, borbulhas e queríamos ser poetas.

lembro-me das máquinas de escrever dos nossos pais, das folhas de stencil, das discussões sobre o lugar das vírgulas, da decisão de escrevermos com minúsculas, do manifesto que fizemos.

lembro-me de ser tudo manual, as primeiras versões da escrita, a impressão, o juntar as folhas uma a uma, agrafar as revistas, vendê-las de mão em mão.

pela primeira vez tínhamos um bem transacionável ainda que não soubéssemos exactamente o que isso era. vai daí, trocávamos as revistas (era como lhes chamávamos) pelo que nos apetecesse, de preferência cervejas ou jarros de vinho, às vezes petiscos de carapau frito em molho de escabeche ou sonhos de bacalhau, dinheiro, e vivíamos como pensávamos que os poetas viviam, sobretudo os que morriam jovens, ou deixavam de escrever e desapareciam ou eram (palavra mágica daquele dicionário muito nosso, muito fruto da nossa idade) libertinos.

achávamos que, rua após rua, conquistávamos a cidade mas acabávamos sempre e irremediavelmente conquistados por ela, a declamar poemas, a procurar cama e amores, a declarar formas definitivas de mudar o mundo, a rir-nos da nossa própria libertinagem.

foi noutro século, andávamos por 1977 ou 78, a memória gasta-se, estamos tépidos, temos barba, perdemos cabelo, escrevemos em computadores, fazemos blogues.

a tal revista, assim como assim,  chamava-se liberatura.

a. pedro correia