A CEIA COM CIO (Asseia-te, Cação!)

Ceava ansioso em Seia o ciumento Idalécio Cação
sentado num bacio de cimento pouco asseado
cioso o Cação da graciosa caça que ciosamente tinha caçado

Tiranete

metes e tiras constante
mente da mente
o tiranete da Net que
mente impune
mente
metes em tiras o tiranete da Net
atiras a mentira para a retrete
e vais curtir um tour de TIR
ou de trotinete
não há Net que te meta inerte

Gostava de reunir contigo para chegar a um consenso

Gostava de curtir contigo está a chegar o incenso Gostava de rir contigo
pra chagar o ambiente tenso Gostava de me divertir contigo pra chingar
o Zé Apreenso Gostava de sentir contigo práconchegar o bom senso Gostava
de sair contigo pra tomar um copo distenso Gostava de sumir contigo para purificar
o censo Gostava de partir contigo até nos afogarmos no mar imenso Gostava de reunir
contigo para chegar a um consenso Gostava de ir ao Rio Nir contigo com o Tigo
e consigo, penso.

o estranho caso do papalagui serial-killer de sedativos

o bolo da minha miúda passeia altivamente
pela mesa
enquanto o papalagui assassina ferozmente
mais um sedativo
num gesto furtivo
de rara subtileza

é fácil:
língua de fora como cobra letal
emborca dum trago
um copo cheio d’água natural
eis o crime consumado
eis perpetuada a redenção
cai de borco extenuado
cai redondo de escantilhão!

oulipo perto (2)

dirigiu-se ao isqueté em vão. tinha fé, a São, em arranjar uma

pré-colocação para o José João. Ia a passar em Pé de Cão quando

colocou mal o pé no chão e apanhou uma infecção. Expulsou o xulé

malsão antes de levar uma injecção e bebeu um chá de hipericão para

acalmar a decepção. mas era grande a inquietação: estava deitada no rés-do-chão,

mas sentia-se em pé no sopé de um vulcão. balbuciou “não há nenhuma conexão

na confecção desta rousselização” (1)! ali por perto, abanou a cabeça, o zé joão,

e disse que não, que não, talvez seja uma queneauzição (3), e esteja oulipo perto,

então…

 

(2) frases inusitadas para situações maradas

(1) Aparentemente não há nenhum sentido: há, felizmente, mas está escondido

(3) o neologismo é um neo-situacionismo!

A prodigiosa pasmaceira de polegário panqueca, propensa ao prenúncio do precipício, prejudicando com pesporrência o próximo e o próprio

Polegário era o peneirento parolo da paróquia que pacoviamente petiscava pataniscas em permanente paranóia e em perfeita parceria com profusa percentagem da patusca e petulante parvónia da pindérica província. Parecia predestinado para a proverbial pobreza, e a perturbante peçonha que o passeava só o provava. Pardacento, poeirento (3), o pobre patego parecia procurar a própria psicose que precipita a personalidade na pretensa plenitude da paz podre. Previsivelmente, a pancada provinha de um passado perturbado, e prometia o paquiderme a puta de uma parafilia perene, que pene!, perdão, que pena! Porra para o pancas (1), porra, pim!(2)

(3) Peixoto, pára, por pavor!

(1) pasme-se: é perfeitamente perceptível que Pancas é o patético personagem P. Panqueca
padecendo de pirosa pancada!

(2) poderíamos permitir-nos polvilhar prudentemente o Pancas com pertinentes pozinhos de
perlimpimpim?!

Pereira no seu pior? Pois, paciência, pá! Pfff…

assim chilreou zappatarustra, zapparastor, zaratolho *

(era doido, sem dúvida)

A incoerência dos discurso aliada à subjectividade solipsista da criação reinvindica a adequeação da realidade distorcida pela miopia da observação desintegrada da integração, blábláblá.

Senão vejamos:

dezapparatustrou quando já dezapparatrunimava: deglutia, de barco, o debochado, e desabou. Dezapparelhou, desandou, depois, deu-se: depôs.

Derretido, derretendo, derramou, que dor!… De que dono? Desnaturado e deprimido debandou, que dano!… dezappanhado, dezappartou: dezappatarraxô, dezapparatachou, que dezzapatino!… desviando, desintegrou; danado pela dor, quedou-se que doce a dor adormecendo, adorador, provoc(a)dor!… dar? dar por dar? nunca! jamais, jaimé dezapparecer, dezapparentencioso, dezapparasempre…

*  é de notar a notável amplidão e vastitude da gi o grafia prática do escriba. é autodidacta, aposto, singelo contra dobrada.

fernando pereira

rua camus

exercício incoerente depois do mito de sísifo

rua camus começa e acaba em muitos lados. pode começar e acabar em muitos lados. pode começar por exemplo em carnaxide e acabar em coimbra. rua camus é muito comprida, e muito escura. e é enorme: é longa, escura, sinistra e tenebrosa. uma rua absolutamente inédita, e absurda. sem dúvida. sim: pode começar e acabar em muitos lados – antes de mais, começa num século: vinte. depois de cristo? está bem: depois de cristo. começa no ano de mil novecentos e setenta e sete, e termina dois anos depois, em mil novecentos e setenta e nove (porque quando eu me suicidar as contas já não (me) interessam). isto é um exemplo: você podia começar pela rua camus no ano que você quisesse. eu quis que a rua camus começasse no ano de mil novecentos e setenta e sete. e é exactamente em carnaxide que começa, e é exactamente em coimbra que termina. que silêncio aterrador… there’s no light along the road. nas margens, há cabeças humanas ao pendurão, acariciadas por grossas cordas. corpos humanos flutuam nesse espaço da rua camus – visto daqui, um enorme e exótico aquário. também aqui dentro, montes de frascos de barbitúricos e outras drogas, completamente vazios. j.j. é só uma boca aberta, e o grito rouco, abafado. j. m. é um pénis grotesco. e os cabelos fulvos de b. j.? brancos, brancos: uma brancura d’anjo-inevitável. impressionante. j. h. confunde-se. os teus dedos, jimi? é tudo muito negro, realmente, deste lado do absurdo. decifrem janis joplin e jim morrison, brian jones e jimi hendrix, e descobrirão rua camus. ora penetrem. ora TENTEM PENETRAR. é díficil sacar da visão? não: verão… há mais, mas estou cansado, e vou dormir. ao fundo, ainda de pijama, cigarro apagado entre os dedos da mão direita, o “famoso” psiquiatra de carnaxide ainda balbucia qualquer coisa que não consigo entender. rua camus, asilo de suicidas, uns arrependidos, outros não. augusto gaspar de lima está irreconhecível. rua camus desemboca em coimbra, doutor! – março, setenta e nove. rua camus termina aqui.

Fernando Pereira

4 agrupamentos de rimas 4

consenso a contento
Neste apartamento friorento
Onde amiúde me sento
Num movimento lento,
O meu maior intento
É que haja consenso a contento,
É que reine geral contentamento
seguido de
quadrinhas muito soltas e pequeninas
da autoria de Suzete Reis,
doméstica urbana
entediada toda a semana
Já estou chateada
Com esta solidão
Não tarda nada
Vou ver televisão
Já estou chateada
Com esta treta
Não tarda nada
Vou passear de lambreta
Já estou chateada
Com esta merdice
Não tarda nada
Vou ao bar d’Alice
 

Já estou chateada
com esta seca
Não tarda nada
Vou curtir uma queca

Já estou chateada
Com tanto problema
Não tarda nada
Vou ao cinema

Já estou chateada
Com tanto futebol
Não tarda nada
Vou beber só tintol

Já estou chateada
Com tanta telenovela
Não tarda nada
Vou-me atirar da janela

Já estou chateada
Com este pincel
Não tarda nada
Vou-me enforcar num cordel

Já estou chateada
Com este vazio
Não tarda nada
Vou-me afogar no rio.

Já estou afogada.

e de um
lamento sintético
da autoria de Maria de Fátima
Jesus dos Santos, peregrina radical
desde a Primavera ao Natal
Ai mãe, não me sinto
Nada bem!
Sinto uma muito grande dor,
Senhor Doutor! 

Pai nosso que no céu estais,
não posso mais!
Pai nosso, mais não posso!
Ai, Pai!

Dá-me alegria, Virgem Maria!
Sou tua adoradora, Nossa Senhora!

Parêntesis sintético ao lamento sintético: Eia, a veia!

Nota explicativa do “tradutor”:
Aveia poética

e finda-se com
cristina no canavial
Cristina,
No canavial,
Cansada,
Coitada,
Não era por mal,
Curtia,
Chorava,
Carpia,
Clamava,
Cuspia,
Cagava,
Mandava-me à fava.

fernando pereira

poema a um parafuso que perdi

hieronymus bosch, a barca dos loucos, louvre

Foi quando tive traumatismo craniano,
Devias ter voado pelo ar;
A cabeça sofreu grave dano,
Mas nunca deixou de funcionar

A tua função era essencial,
Mas a pilha não desencaixou;
Não fiquei atrasado mental,
A cabeça não parou

Mas tu, “nanico” (*), grande sacana,
Fazes-me uma certa falta:
Já não posso apanhar uma bezana,
Que fico fraco e sou gozado pela malta!

(*) Tratamento carinhoso do parafuso saudoso

Fernando Pereira

concerto grosso

CONCERTO GROSSO (1) POUR DE-COR-ELLI (2) (ELLI-HI- ELLI-HI! AH! UP-LÁ-HÔ)

saí de casa com uma grande pedra na cabeça. era manhã. ando muito fora de mim, e mim chateia-se, porque todos os dias perco qualquer coisa dentro de mim. hoje, logo no primeiro tropeção, perdi a batuta. melhor: roubaram-ma. e eu sei quem foi: foi o fernandelli. mas não m’importo. somos muito amigos, gosto muito dele, e não m’iria chatear com ele. caguei na batuta. ele topou, mas não s’importou. mas às tantas, a guida tirou-lha. tudo bem: fui com a pedra e com o peso da pedra e com a guida/batata/de batuta e estampei-me contra uma mercearia. primeira frustração. guida despediu-se e devolveu a batuta a fernandelli. senti-me profundamente angustiado, e voltei para casa. aqui, numa arremetida mesclada de histeria e desespero, decidi colar um cartaz na parede da sala de estar, com isto escrito: “preciso de amor para viver como o peixe precisa de água para fazer o mesmo. fernando pereira”. minha mãe engasgou-se, soluçou, desatinou, esmurrou e rasgou. rasgou a ideia de pôr o cartaz: “ó doido, vai trabalhar” – disse-me. segunda frustração. saí depois d’almoço com mais pedras na cabeça. na paragem do autocarro topei um puto com trabalhos manuais na mão direita, em pleno asfalto, debaixo de chuva impiedosa, eufórico, a rir-se doida e lindamente. talvez fosse eu a dançar o “lago dos cisnes”. isto pensei eu – mas não k’ideia: era o outro, o petiz. feliz. perguntei-me então, melancólico: “porque não sou eu aquele, e agora, com aquela idade, VIVO?”. mas logo a seguir reparei que vestia um casaco preto, e interroguei-me: “sou recepcionista numa residencial, não é?”. “pois é” – respondi-me logo a seguir, angustiado. terceira frustração. saí do autocarro com os óculos sujos e as pedras na cabeça a confundirem-me. deparei com uma mulher que procurava há dias. “estou cheio de sorte” – pensei. hesitei. hesitei a princípio, mas depois caminhei decidido: “HÓ-HÓ!… OLÍVIA “DE HAVILLAND!” please to meet you (hope you guess my shit)! estás ocupada? não?! vem daí!” – finalmente resoluto (seria fernandelli?). decidimos ir para a cave do angola, café. pelo caminho, numa sucessão louca, larguei e recuperei dezenas de vezes as minhas pernas, que estariam, mui provavelmente, a pensar em ir para outro sítio. venci-as, claro. graças a não sei quem, sou dotado de uma força de vontade extraordinária (sei que estou a mentir). à entrada do café fui atropelado por um amigo da minha irmã (mea culpa): “estás p-p-porreiro?” olívia desceu prá cave, pressurosa. eu ia atrás dela, e ia sentindo a estranha sensação de levar às costas o amigo da minha irmã, claro que o ludovico tinha ficado lá fora, mas vocês sabem como é: sou muito paranóico. pois. depois: extro-vertida-olívia-verteu-poesia-do-parque intro-vertido-fernando-verteu-agonia-in-the-dark(ness) e momento quarta frustração. a angústia redobra de intensidade. meto-me noutro autocarro, e volto pra casa. estendo-me na cama. quero ouvir música. ligo a telefonia, mas adormeço. quando acordo, digo: quinta frustração.

não: nada de batutas de batotas. nem nada de batatas: a anorexia é demasiado evidente. só me pergunto, como é que eu, com tantas frustrações, TODOS OS DIAS, vou conseguir deixar de andar, TODOS OS DIAS, com tantas pedras na cabeça. tam.

FINALE MAJESPASTOSO


(1) GROSSO: nos finais do século XX depois de cristo, a população, quando topava um bêbado, dizia: “ena: está grosso”.

(2) DECOR ou também de cor (e salteando): quer dizer que o concerto pode servir de decoração a utilizar nos quartos dos bêbados liberatúricos anti-académicos (e não só).

CORELLI: compositor grosso – perdão: italiano. escrevia bonitos concertos grossos. fernandelli disse.

a poesia é debochada

a Senhora engatou-me, levou-me pró café e aí perguntou-me, depois de me advertir: “call me madam”:

– com que então gostas de poesia, hem? muito bem. então quais são os poetas que mais aprecias?

eu respondi à Senhora com rapidez, alegria, algum humor, mas sobretudo com muita sinceridade:

– sade masoch bocage e herberto helder. é claro, minha querida Dona e Senhora, que eu sou louco por muitos outros poetas que considero bestiais mas também já concluí serem sem dúvida esses quatro que lhe citei os melhores, os maiores, aqueles por quem nutro uma admiração flipada. se não tenho dito, então tenho escrito.

creia-me, minha Dona e Senhora, como o seu servo mui fiel, obediente, submisso, respeitado, respeitador, e domado. ao ouvir estas palavras, a Senhora ergue-se com ar de superioridade e abriu-se completamente e ordenou, com voz soberba, solene, e sublime:

– escreve, escravo!

– escrevo, escrevo! – eu respondi.

fernando pereira