as pinturas feitas de arco-íris

as pinturas feitas de arco-íris imaginados desfizeram-se à chuva  quando o frio metálico das lâminas queimava os cabos de uso contínuo.

e os cães bebiam o leite das garrafas espalhadas no chão e dos corpos pingando.

por mais que os homens se atirem das torres ou das escadas construídas caem sempre na terra.

domingues pinto

fotografia de amontei

faltavas tu

era um sono meio in-
completo faltavam tu-
lipas mas era o tempo futuro onde
me seria dado habitar. os humanos Continuar a ler

sequestrada

No centro de saúdita dos anjos cada médico tem 1500 pacientes, hoje há consulta geral de 5 (nota de rato), marcada o ano passado, visto não ter direito a um de família. A sra dra, qual farofa brandinha, toca a despachar e a desvalorizar sintomas. Beba chás (nomeou 3) observação tá quieta que já está na hora desligarem computadores e quanto a dúvidas, a menina não sabe e são coisas ( ressonâncias magnéticas, ultra sons, lazers, onda curtas, microships) que custam muito dinheiro. 7 euros e meio se consultas de especialidade e psicóloga a 4 só sextas de manhã. Libertinos de cordel convocam balanço, em limitações próprias do abismo. Voltar mais ignorante a esta realidade muda.

A prodigiosa pasmaceira de polegário panqueca, propensa ao prenúncio do precipício, prejudicando com pesporrência o próximo e o próprio

Polegário era o peneirento parolo da paróquia que pacoviamente petiscava pataniscas em permanente paranóia e em perfeita parceria com profusa percentagem da patusca e petulante parvónia da pindérica província. Parecia predestinado para a proverbial pobreza, e a perturbante peçonha que o passeava só o provava. Pardacento, poeirento (3), o pobre patego parecia procurar a própria psicose que precipita a personalidade na pretensa plenitude da paz podre. Previsivelmente, a pancada provinha de um passado perturbado, e prometia o paquiderme a puta de uma parafilia perene, que pene!, perdão, que pena! Porra para o pancas (1), porra, pim!(2)

(3) Peixoto, pára, por pavor!

(1) pasme-se: é perfeitamente perceptível que Pancas é o patético personagem P. Panqueca
padecendo de pirosa pancada!

(2) poderíamos permitir-nos polvilhar prudentemente o Pancas com pertinentes pozinhos de
perlimpimpim?!

Pereira no seu pior? Pois, paciência, pá! Pfff…

tributo ao rui costa (1972 / 2012)

ei-lo feito de árvore, erguido a um nome
crescente. a noite dos caminhos diz
– acende em mim a lâmpada, começa
a ser eterno, adita-me o teu rosto aonde voo. no
princípio, ouves a dor bulir os ramos, compreendes
para a conversa seguinte o diálogo
confuso de um rio no teu corpo.

fotografia de Miguel Manso

Os números de 2011

Os duendes de estatísticas do WordPress.com prepararam um relatório para o ano de 2011 deste blog.

Aqui está um excerto:

Um comboio do metropolitano de Nova Iorque transporta 1.200 pessoas. Este blog foi visitado cerca de 5.800 vezes em 2011. Se fosse um comboio, eram precisas 5 viagens para que toda gente o visitasse.

Clique aqui para ver o relatório completo

a terra tem um verme que se infiltra em nós

a verve tem um verbo
a hora tem minutos

depois não digas que te não
disse dos segundos

das folhas dos comuns lugares
onde estive como
não tendo estado. dai-me

um corpo, onde a voz saia da pele
dai-me um estorvo para poder fugir da
repetição dos gestos e inexactos
actos refugiado no assim assim
assim não será apenas mais, a vez será outra
e que chovam águas e

entre elas façamos ondas
longos pedaços de forças
instáveis depois

não digas que não.

Vidrinho de cheiro

 

A. tinha tido uma infância infeliz, absolutamente solitária, aceitando apenas a presença dos pais, chorando agressivamente para se soltar de qualquer outra pessoa que lhe quisesse pegar ao colo. Na escola, vivia afastada dos colegas, sentando-se no fundo da sala e insistia em ficar sozinha. No recreio, fugia de todos, gritando “Cheiras mal!”, o que lhe valeu ser alvo da mais insensível das crueldades, a das crianças, que lhe retribuíam insultos e que tapavam o nariz com esgares de repugnância, sempre que a viam. Foi-lhe diagnosticado um distúrbio obsessivo-compulsivo que poderia desaparecer ou atenuar-se com a idade.

A verdade é que tudo continuou na mesma: na adolescência, o mesmo ensimesmamento, os dias passados no quarto em silêncio, tolerando sempre e apenas os pais. Na rua, chegava ao ponto de mudar de passeio sempre que corria o risco de se cruzar com outras pessoas. Para se deslocar entre casa e a escola, ia sempre a pé e, mesmo em dias de chuva, não andava de autocarro, após ter vomitado da primeira vez que tentou fazê-lo.

Os pais resolveram insistir noutras soluções para tentar que a filha acabasse por levar uma vida normal. Após vários testes, demorados, dolorosos, ascorosos, ouvindo palavras quase estrangeiras de tão estranhas, como anosmia, parosmia ou cacosmia, acabaram por perceber que possuía uma característica única: só cheirava o interior das pessoas. Perfumes, suores, excreções, nada o seu olfacto detectava. Descargas de adrenalina, formação de quimos e quilos, o acre da bílis, o metal do sangue a correr pelo corpo, o sulfúreo dos gases ainda retidos nos intestinos, tudo isso lhe agredia a pituitária. Quando os médicos lhe perguntaram como conseguia suportar, então, os odores internos dos pais, não soube sequer dizer se cheiravam mal ou bem. Continuar a ler

Com muito tacto

C. nasceu de parto normal, chorou como choram todos os bebés, mamou como é costume e deu aos pais o número habitual e suficiente de más noites, sem as quais qualquer bebé se torna uma inverosimilhança de forma humana.

Passado pouco mais de um ano, a criança continuava com as mesmas virtudes e defeitos de todas as crianças cuja história é tão normal para os outros como extraordinária para os pais. Um dos vícios que tinha adquirido era o de dormir sempre com um urso de peluche que começava a ficar gasto. Numa noite trágica, o boneco desapareceu, obrigando os pais a espreitar debaixo de todos os armários, pressionados pelo choro enraivecido da criança revoltada contra um mundo que se mostrava tão injusto e incompreensível. O urso não apareceu e C. acabou por adormecer, soluçando desconsolado.

A meio da noite, os pais resolveram espreitá-lo e, espantados, viram nas mãos do filho o peluche. A mãe teve a estranha sensação de que o boneco estava como novo, mas o sono e a resolução, ainda que improvável, de um problema desviaram-lhe a atenção de pormenores que perdiam toda a importância face ao sorriso sossegado do belo adormecido. Continuar a ler

FRAGMENTOS DE UM DIÁRIO POR ESCREVER [VII]

Três centímetros de pele sucumbem à guerra das trincheiras. Quem coça perdidamente a ferida que lhe cega a alma perde o mundo. Pela impossibilidade de não o fazer, jugo agridoce, mata a mão (invertendo aqui o seu destino natural) a vontade. Do seu frenesi, doloridamente doido, não temos senão o símile violento do coito.

Eurico de Carvalho

[Primeira Publicação: In O Tecto. N.º 60. 2008 (Fevereiro), p. 4.]

Diálogo minimalista [I]

 

A — Já não acredito em ninguém!

B — Nem mesmo em ti?

Autor: O Inquisidor

Relator: Eurico de Carvalho

[Primeira Publicação: In O Tecto. N.º 56. 2007 (Julho), p. 7.]

princípio situacionista da adulteração de um media com balões subversivos

da fot0nela entretanto baNALIzada

minero-asturiano-situationn

nada como foder com um minero asturiano
!esos sé que son hombres!

este tudo começou assim

Importa-se de repetir?

  

N. tinha um peculiar problema de audição: só ouvia os elogios, os cumprimentos e as expressões neutras. As palavras insultuosas ou as críticas transformavam-se em sons inarticulados e uma expressão como “grande besta”, por exemplo, soava-lhe invariavelmente como “svlevio”. Apenas o facto de ser extremamente corpulento lhe valeu manter-se a salvo de agressões físicas, nas muitas ocasiões em que caminhava em direcção aos que o insultavam pedindo-lhes, sorridente, que repetissem, por favor, que não tinha percebido. Onde estava apenas um cândido surdo, os interlocutores viam um homem dotado de uma coragem tão calma que só podia ser perigoso e, intimidados, afastavam-se para desgosto de N. que ficava sempre frustrado por, mais uma vez, não ter percebido o que diziam. Para outros, não passava de um homem irritante, de uma agressividade contida. Esta sua característica tornava-o, ainda, insensível à ironia, sendo, portanto, usual, responder um sincero “Muito obrigado, é muito amável!” a alguém que lhe arremessasse um ácido “És muito esperto, és!”. Continuar a ler

tudo cabia

com um pescoço de soslaio fazia dos dias cal e das tábuas paredes. tudo cabia nelas. até o primeiro segundo. adormeceu depois aos som quente das figueiras.

tomava como certa a água cheia. uma atitude eficaz. engavetava as trovoadas com precisão. depois ao terceiro dia minimizava o impacto das janelas nas cores e esperava.

vê a dimensão das coisas

vê a dimensão das coisas
o espaço entre elas,
a voz que lhes assiste.

as coisas têm voz, paz.
a outras vozes chegam e
mexem nas coisas. as coisas

não têm voz. nem
a paz que lhes assiste.

pulsos. abnegados

à porta da lama abrem-se os pulsos. abnegados
tornos que accionam a combustão. como se fogo e vento
fossem a mesma faúlha. como se

os justos sucumbissem ao mosto
das noites. safra esplêndida e mortal.
cerram-se os dentes. depois as pálpebras.
sofreguidão. depois
continuamos o ornamento do território.

DAR VOZ ALTA À POESIA [V]

AMAR

(Para Almeida Garrett.)

Não sei, amor, amor que não amar,

nem vinho que em mim não seja ceia.

Bebê-lo é termos lenha que se ateia,

quando a Lua encontra o seu lugar.

Amar, amor, é ser maior, amigo

de quem colhe em nós o nosso alor.

(Sabê-lo-ei colher eu, que o digo,

se além destas palavras não for?)

Não sei amar, amor, senão por ti,

mas sempre, mulher, confesso!, menti

por haver outra a seguir ao beijo.

Não sei, se não te amo, amor, amar-te

por ser por mor de mim o meu enfarte.

Amar, amor, era amar sem desejo!

Eurico de Carvalho

In «O Tecto»,

Ano XVIII, n.º 56,

Julho/2007, pág. 13.

retro versão

retro versões

quando crescer quero ser puto e jogar às escondidas com o umbigo ela olhando o tecto da sua casa, a esta hora já deveríamos estar na rua fugindo do outono a estação onde nunca param os comboios felizes onde há bar aberto e cerveja pouco fresca acontece que a desenvoltura das coisas chora as lágrimas burocraticamente ainda não me acredito nisto, depois se verá, aliás o outono é uma antevisão de climas menos temperados choraria a primavera assim não sei desejo-te um verão quente e gonçalvista numa adolescência feroz talvez então conversássemos no mesmo bilinguismo opaco mas claro dizendo que oui oui non non talvez peut-être trouver la façon le rencontre,

ora destas retroversões venho reprovado
desde o ensino mais básico.