Os números de 2011

Os duendes de estatísticas do WordPress.com prepararam um relatório para o ano de 2011 deste blog.

Aqui está um excerto:

Um comboio do metropolitano de Nova Iorque transporta 1.200 pessoas. Este blog foi visitado cerca de 5.800 vezes em 2011. Se fosse um comboio, eram precisas 5 viagens para que toda gente o visitasse.

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Vidrinho de cheiro

 

A. tinha tido uma infância infeliz, absolutamente solitária, aceitando apenas a presença dos pais, chorando agressivamente para se soltar de qualquer outra pessoa que lhe quisesse pegar ao colo. Na escola, vivia afastada dos colegas, sentando-se no fundo da sala e insistia em ficar sozinha. No recreio, fugia de todos, gritando “Cheiras mal!”, o que lhe valeu ser alvo da mais insensível das crueldades, a das crianças, que lhe retribuíam insultos e que tapavam o nariz com esgares de repugnância, sempre que a viam. Foi-lhe diagnosticado um distúrbio obsessivo-compulsivo que poderia desaparecer ou atenuar-se com a idade.

A verdade é que tudo continuou na mesma: na adolescência, o mesmo ensimesmamento, os dias passados no quarto em silêncio, tolerando sempre e apenas os pais. Na rua, chegava ao ponto de mudar de passeio sempre que corria o risco de se cruzar com outras pessoas. Para se deslocar entre casa e a escola, ia sempre a pé e, mesmo em dias de chuva, não andava de autocarro, após ter vomitado da primeira vez que tentou fazê-lo.

Os pais resolveram insistir noutras soluções para tentar que a filha acabasse por levar uma vida normal. Após vários testes, demorados, dolorosos, ascorosos, ouvindo palavras quase estrangeiras de tão estranhas, como anosmia, parosmia ou cacosmia, acabaram por perceber que possuía uma característica única: só cheirava o interior das pessoas. Perfumes, suores, excreções, nada o seu olfacto detectava. Descargas de adrenalina, formação de quimos e quilos, o acre da bílis, o metal do sangue a correr pelo corpo, o sulfúreo dos gases ainda retidos nos intestinos, tudo isso lhe agredia a pituitária. Quando os médicos lhe perguntaram como conseguia suportar, então, os odores internos dos pais, não soube sequer dizer se cheiravam mal ou bem. Continuar a ler

Com muito tacto

C. nasceu de parto normal, chorou como choram todos os bebés, mamou como é costume e deu aos pais o número habitual e suficiente de más noites, sem as quais qualquer bebé se torna uma inverosimilhança de forma humana.

Passado pouco mais de um ano, a criança continuava com as mesmas virtudes e defeitos de todas as crianças cuja história é tão normal para os outros como extraordinária para os pais. Um dos vícios que tinha adquirido era o de dormir sempre com um urso de peluche que começava a ficar gasto. Numa noite trágica, o boneco desapareceu, obrigando os pais a espreitar debaixo de todos os armários, pressionados pelo choro enraivecido da criança revoltada contra um mundo que se mostrava tão injusto e incompreensível. O urso não apareceu e C. acabou por adormecer, soluçando desconsolado.

A meio da noite, os pais resolveram espreitá-lo e, espantados, viram nas mãos do filho o peluche. A mãe teve a estranha sensação de que o boneco estava como novo, mas o sono e a resolução, ainda que improvável, de um problema desviaram-lhe a atenção de pormenores que perdiam toda a importância face ao sorriso sossegado do belo adormecido. Continuar a ler

Diálogo minimalista [I]

 

A — Já não acredito em ninguém!

B — Nem mesmo em ti?

Autor: O Inquisidor

Relator: Eurico de Carvalho

[Primeira Publicação: In O Tecto. N.º 56. 2007 (Julho), p. 7.]

Importa-se de repetir?

  

N. tinha um peculiar problema de audição: só ouvia os elogios, os cumprimentos e as expressões neutras. As palavras insultuosas ou as críticas transformavam-se em sons inarticulados e uma expressão como “grande besta”, por exemplo, soava-lhe invariavelmente como “svlevio”. Apenas o facto de ser extremamente corpulento lhe valeu manter-se a salvo de agressões físicas, nas muitas ocasiões em que caminhava em direcção aos que o insultavam pedindo-lhes, sorridente, que repetissem, por favor, que não tinha percebido. Onde estava apenas um cândido surdo, os interlocutores viam um homem dotado de uma coragem tão calma que só podia ser perigoso e, intimidados, afastavam-se para desgosto de N. que ficava sempre frustrado por, mais uma vez, não ter percebido o que diziam. Para outros, não passava de um homem irritante, de uma agressividade contida. Esta sua característica tornava-o, ainda, insensível à ironia, sendo, portanto, usual, responder um sincero “Muito obrigado, é muito amável!” a alguém que lhe arremessasse um ácido “És muito esperto, és!”. Continuar a ler

Hoje, depois de inspirar, expirei e sou menino para voltar a fazer o mesmo.

Hoje, estou sob a influência do verdadeiro jornalismo de investigação.

Porque isto não é só chegar aqui e experimentar a nossa maravilhosa gastronomia!

“Como é possível um turista de luxo ficar numa maca num corredor de hospital?”, diz o presidente da Câmara de Loulé

 

          Seruca Emídio, para além de presidente da Câmara de Loulé, é médico. O que dizer de um país que tem licenciados que verbalizam insensibilidades e que, ouro sobre azul, chegam a desempenhar cargos políticos?

falsidades

A única revista que actualmente recebo regularmente em casa é a L+Arte que considero a melhor revista de arte portuguesa. A razão principal desta predilecção que a minha mulher me insuflou, é as crónicas impecavelmente íntegras da Raquel Henriques da Silva. E, a seguir, acho piada a ver as coisas da arte. Mas hoje trago-vos nota de um artigo do historiador Joaquim Oliveira Caetano que saiu este mês. É um artigo bom intitulado “Falso!” que me obrigou a passar o dia a pensar em palimpsestos, palavra uberemente poética que nunca consigo exorcizar, quando me assoma ao dia.

(Já sei. Vou fazer um ocr para que fiquem com ele, por não estar online. Quem é amigo, quem é? Aí vai:) Continuar a ler

cojones e animales

Sempre que em qualquer lado se faz um referendo ao aborto, nunca há anti-abortistas. Há é os eufemistas do “pró-vida”, para dar a entender que os seus opositores, os abortistas, querem pôr na lei que é preciso fazer morrer pessoas, e que quanto mais pequeninas, melhor. Com a proibição das touradas na Catalunha é extraordinário que aqueles que querem ir a um sítio ver espetar ferros pontiagudos e coloridos em touros, escolham o eufemismo “pela liberdade” para dar a entender que os outros são “anti-liberdade“. Presume-se, pois, que estes pró-liberdade lutem pela liberdade de ver furar os costados do animal. (Um touro sim, um cão, não, que é violência, mesmo que fosse criado para isso, tadito do canito). Imagino que garantir essa liberdade, nos mesmos termos, mas agora em relação aos homens seria coisa interessante de ver. Quero espetar um garfo no olho do senhor guarda nacional republicano que me passou uma multa, o fascista. Nada mais simples. Grito “Liberdade, liberdade, liberdade” e transformo-me, de repente, num pró-liberdade. Um resistente anti-fascista. Pró-liberdade.E diz o el mundo que “triunfaron los animales”. Visto daqui, dá a entender que “animales” são os que perderam.Por falar em “animales” e gente que luta pela liberdade de disparar de helicópteros contra “animales“. Sarah Palin diz que o presidente Obama não tem “cojones” para resolver a questão da imigração. Diz ela que quem tem cojones é Jan Brewer. (Especialistas. Temos de escutar os especialistas. Parem lá de rir.)

Será que a senhora Palin sabe que cojones é coisa que a governadora do Arizona, Jan Brewer, por razões que se não devem à sua competência profissional, nunca terá? Aqui.

memo

Não sei o que pensam fazer no próximo 7 de Agosto, mas se os vossos planos não incluem vestir o melhor fato, pôr o melhor vestido, envergar a melhor disposição ir ver a Carmen Souza e o Theo Pas’cal  ao CCC, é porque faz-vos sentido passar ao lado das coisas. E não é suposto ser assim. É memo para seguir. Elucidativo é ver as influências que a moça selecciona no seu myspace: Ella, Weather, Jaco, Joni, Bill Evans, Zawinul, to name a few. E o que tem de ser…

feissebuque

Agora que, nas escolas, já ninguém chumba, nem por faltas, nem por coisa nenhuma, só para que o insucesso enfim diminua (isto é de gargalhar), a autoridade dos professores, deve confessar-se, sai reforçadíssima. A autoridade dos alunos é que caiu por terra. Senão vejamos: [‘té parece que já me estou a ver a dizer aos alunos].

“Amiguinho, o menino acha que está por aqui a mais e não lhe apetece estudar, não é? Shtá borrecido. Atão, faça-nos lá o obséquio de ir dar uma volta ao bilhar grande. Está-se bem, ’tá-se tão melhor na rua, co’este solinho. No sequei-te parque. Como? Falta? Que falta? Ná. Não sabe a última? Ah, poizé, você não lê jornais. Não lê nada, de resto, a num ser éssémiésses, aifaive e feissebuque. Esteja o infante descansado, porque assimcumássim o menino nem chumba por causa das faltas. Sim. A sério. Palavra de honra que é verdade. Se quiser até as pode justificar porque é preciso que as justifique para que sim. b’tarde. Ó Mariana, agora que o Fábio has left the building, acabe lá de ler o texto do Descartes. Sim, a parte dos .”

Agora é assim: se por ventura, um jovem tem em casa quem lhe ensine a importância de aprender coisas e saber mais, tudo se segura. Caso assim não seja, e o que mais há neste país é gente a achar que a escola não ensina nada que se aproveite – numa época em que ninguém percebe os clássicos,a culpa é dos clássicos então resta aos meninos o sempiterno e omnipresente bilhar grande. E não há-de ser às três tabelas, que isso exige cálculo. Há-de ser às três pancadas.

what’s up, docs?

Acontece sempre isto no Verão. Deito-me um pouco mais tarde e acabo a noite a ver um documentário qualquer que devia passar a horas decentes. Ontem gostei imenso de um filme feito pelos franceses Jules and Gedeon Naudet e o bombeiro James Hanlon que registaram em vídeo tudo o que se passou no interior do World Trade Center. Chama-se 9|11, é humaníssimo e revelador do transe por que passaram aqueles homens e aqueles dias. Aqui.

Outro documentário – já quase não vejo outra coisa na televisão – é a série documental extreme phobias, da bbc, com a participação de James Bennett-Levy (um australiano behaviorista cognitivo). Ter um pavor paralisador de botões da roupa, sapos, flores, estrelas do céu, esponja, teias de aranha, torres eólicas, ouriços, algodão, pássaros, joelhos (sim, joelhos) e, pasme-se, o caso de um cozinheiro que entra em pânico sempre que vê… feijões e o caminho terapêutico que estas pessoas, em tudo o mais absolutamente normais, percorrem, é um incrível documento que cumpre não perder.

Pena é que apenas sejam exibidas estas coisas a horas tão inclementes.

CEM PALAVRAS [I]

Rio Ave, 28 de Agosto de 2006: 19h59 (Vila do Conde).

Não tenho o sonho de ser fotógrafo. (Sempre cultivei uma relação ambivalente com a arte de Daguerre: de um lado, o desprezo do iconoclasta; do outro, a admiração de quem preza filosoficamente a captura tecnológica do instante, vendo nela uma proeza à altura de Prometeu.) Mas esta fotografia (feliz acaso de um mero caçador de imagens) revela algumas perplexidades. É indiscutível a formosura da paisagem. A simetria do enquadramento dos motivos realça a alma do lugar. Tudo isto, porém, esconde a realidade: a poluição do rio Ave. Eis a crítica clássica à desenfreada produção fotográfica: a falsa estetização do real.

Eurico de Carvalho

[Primeira Publicação: In Montr@ d@s Letr@s e d@s Idei@s (http://euricodecarvalho67.blogspot.com/: 1 de Setembro de 2006).]

a pá

 

primeira raiva
dirigida
e executadda
 
com brio
 
bicos de pés
a tua cabeça lá no alto
 
memória indelévil
obrigada e parabéns
 

 

 imagem environnement.ecoles

Qualquer coisa me diz que Portugal não tem resposta a secas

“Sócrates garante que Portugal tem resposta a secas”

Mário dos Santos Cardoso 1925-2010

comunista, meu tio, o que me ensinou as palavras merda, filhosdaputa (tudo pegado que a mãe deles não tem culpa), cabrões, cagalhões e outras essenciais para a  sobrevivência de um utente da língua portuguesa,

a nadar (mal) e a não ter medo das ondas do Atlântico (bem), a ser da Académica, mesmo havendo sempre porrada quando íamos ao Municipal,

também o homem que chamou filhodaputa a um inspector da Pide achando que 14 anos era um bocado cedo para eu passar uma tarde na Antero de Quental, mas nunca, nunca, nunca, tal como o meu pai, se queixou de alguma precocidade esquerdista de que abusei,

e amanhã lá vou ver se levo a porra dos cravos vermelhos para se fazerem cinzas contigo, acho que concordávamos no a  política fica mal misturada com flores mas como ainda vivo na casa onde pintaste os tectos de vermelho, e rosas amanhã são da santinha e foram ocupadas pelos shoares, se houver levo, e não levando levarei os anos que nos perdemos pela razão que também de ti herdei, e nos faz perder e encontrar, mas somos assim, o meu tio tinha uma tia a que sempre fomos muito chegados, padeira que criou muito filho, e ainda em parte o meu avô, a Maria Sarna, como lhe chamavam em Vila Moreira, ligava pouco às flores, às sardinheiras sim, que são o vaso do pobre. E Sarna é um belo apelido que mistura bem com o galego Cardoso.

um dia voltamos, e damos cabo destes cagalhões todos. não esperem sentados, já faltou mais.

elogio fúnebre (vi um homem que viu outro que viu o mar)


no escuro à noite o homem das letras olhava o mar em busca das palavras da fórmula adequada do verso certo
depois o gato acendeu os faróis e tudo se lhe tornou claro…

hugo colares pinto